
O sistema de segurança pública da Paraíba enfrentou um forte abalo nesta terça-feira (2) com a deflagração da Operação Perfidus, que desarticulou uma organização criminosa acusada de desviar drogas apreendidas para comercialização ilegal.
O esquema, que operava há pelo menos quatro anos, funcionava por meio de uma conexão direta entre policiais civis e traficantes parceiros, que indicavam depósitos de facções rivais para que os agentes fizessem a apreensão, desviassem o material e o revendessem. A apuração começou em fevereiro de 2025, após a denúncia de um detento, e revelou que o grupo desviava substâncias até mesmo no momento da incineração oficial. Na audiência de custódia realizada nesta terça-feira (2), a Justiça manteve as prisões temporárias dos policiais civis envolvidos, que foram transferidos para o Presídio Especial do Valentina, em João Pessoa.
No topo da estrutura estava o delegado Braz Morroni de Paiva Júnior, profissional com mais de 20 anos de carreira e que comandava a Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio.

De acordo com as investigações, ele tinha participação ativa na organização, utilizando sua posição hierárquica para oferecer proteção institucional ao grupo e cobrar rapidez na recuperação de valores de drogas vendidas a prazo. Além de tolerar as ações dos subordinados, ele era beneficiário direto dos lucros, existindo registros de transferências bancárias em seu nome e indícios de que ele comparecia pessoalmente à delegacia para receber sua parte do dinheiro em espécie.
A Justiça determinou seu afastamento do cargo, bloqueio de bens e suspensão do porte de armas, enquanto sua defesa ressaltou o direito constitucional à presunção de inocência e afirmou que provará sua idoneidade no momento oportuno.
O investigador Everton Rychelyson da Silva Aires, conhecido como Bomba, é apontado pela investigação como o principal operador financeiro e o elo central entre a corporação e as facções criminosas.
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Cabia ao agente a função de guardar os carregamentos de cocaína e skunk desviados, negociar as cargas com os traficantes, organizar a contabilidade clandestina e orientar os comparsas sobre mecanismos de lavagem de dinheiro. O policial também mantinha transações financeiras consideradas incompatíveis com sua renda e atuava em esquemas paralelos de comercialização de anabolizantes e importação irregular de mercadorias.
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Outro agente público com papel de destaque no esquema era o investigador Eduardo Jorge Ferreira do Egito, apelidado de Mão Branca.
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A investigação aponta que ele participava diretamente da execução das abordagens para a subtração das drogas, monitorava os carregamentos das facções e manipulava rastreadores instalados em veículos para não deixar vestígios das ações criminosas. O policial civil também era o responsável por armazenar os entorpecentes roubados em sua própria residência e apresentava movimentações financeiras milionárias e suspeitas por meio de empresas e terceiros.
A distribuição e o refino das drogas desviadas na Região Metropolitana de João Pessoa ficavam sob a responsabilidade de João Wicttor Alves de Lima, conhecido como Vitor, e de seu subordinado, Brendo Roberth Fernandes Sobral.
João Wicttor era o encarregado de processar o material fornecido pelos policiais, comercializar as substâncias e realizar as transferências financeiras para pagar os agentes públicos. Brendo atuava diretamente na guarda, refino e distribuição dos entorpecentes na base operacional da organização.
O grupo contava ainda com o apoio logístico de Paulo Ricardo Barbosa de Souza, o Galinha, que atuava como informante dos policiais civis e distribuidor. Ele utilizava empresas próprias para movimentar os recursos financeiros do bando e monitorava os passos de criminosos rivais, entregando a localização dos depósitos de drogas para os investigadores em troca de uma porcentagem das cargas que seriam subtraídas pela equipe policial.
A ramificação do esquema no Sertão da Paraíba e no Rio Grande do Norte era liderada por José Alexandrino de Lira Júnior, conhecido como Júnior Lira. Ele é descrito nas investigações como o chefe da distribuição de grandes carregamentos de drogas nessas regiões, responsável por financiar as remessas interestaduais de entorpecentes e por manter contato comercial direto com o investigador Everton Aires para abastecer o mercado do interior.
A contabilidade e a blindagem do patrimônio na célula sertaneja eram gerenciadas por Vanessa Dantas Fernandes, esposa de Júnior Lira, apontada como a tesoureira do esquema na região. Ela disponibilizava suas contas bancárias para receber e pulverizar o dinheiro do tráfico e mantinha uma rotina volumosa de depósitos fracionados de pequenos valores em lotéricas e caixas eletrônicos, seguidos por saques sistemáticos na boca do caixa, estratégia utilizada para burlar a fiscalização e viabilizar a evasão física do dinheiro que seria enviado aos policiais.
O único integrante com mandado de prisão em aberto que não foi capturado na operação é Dankennedy Vieira Brito da Silva, o Babau, membro da facção criminosa Nova Okaida. Ele havia sido uma das vítimas do desvio de drogas praticado pelos policiais e acabou dando origem às investigações após publicar vídeos e imagens nas redes sociais expondo a ação dos agentes públicos, motivado pela perda de suas mercadorias.
A operação também resultou no cumprimento de 24 mandados de busca e apreensão, incluindo endereços de Jobson Rodrigo da Silva, Fabiano de Matos Farias e do ex-policial militar Diego Ernesto Pereira Barros, que mantinham relações financeiras suspeitas com o grupo. O ex-PM acabou preso em flagrante por posse ilegal de arma e obstrução de Justiça ao tentar atrapalhar as buscas, mas foi liberado após audiência de custódia, com sua defesa classificando a prisão como excessiva e desproporcional.
da Redação