Transtornos alimentares são vendidos como “estilo de vida” em vídeos virais nas redes

Conteúdos que incentivam comportamentos ligados à anorexia e à bulimia voltaram a circular nas redes sociais, agora com uma nova roupagem. O que antes aparecia em blogs dos anos 2000, hoje surge em vídeos no Instagram e no TikTok, apresentados como dicas de saúde, disciplina ou estilo de vida.

Levantamento identificou dezenas de publicações que ensinam práticas como longos períodos sem alimentação, restrição extrema de calorias e até métodos para provocar vômito ou compensar refeições. Especialistas alertam que esse tipo de conteúdo mascara sintomas de transtornos alimentares e pode agravar quadros, principalmente entre jovens.

Segundo o psiquiatra Fábio Salzano, do Ambulim, o cenário atual é mais preocupante do que no passado. “Esse movimento que estamos vendo é um risco à saúde. As pessoas estão naturalizando quadros de doença. A gente tem um terreno em que as pessoas estão muito mais vulneráveis”, afirmou.

A principal mudança, de acordo com profissionais da área, está na forma como esses transtornos são apresentados. Em vez de serem reconhecidos como doenças, passam a ser tratados como hábitos saudáveis, criando comunidades digitais que reforçam esses comportamentos.

Para o psiquiatra Amilton dos Santos Júnior, esse ambiente amplia o risco, especialmente entre adolescentes. “As redes sociais criaram comunidades que tratam a anorexia e a bulimia como um estilo de vida, proporcionando um falso, mas poderoso, senso de pertencimento para jovens em sofrimento”, destacou.

Os especialistas também chamam atenção para o uso indevido das chamadas “canetas emagrecedoras”. Segundo eles, pessoas sem indicação médica têm recorrido aos medicamentos para reduzir a alimentação, o que pode desencadear ou agravar quadros de anorexia.

Dados do Ministério da Saúde indicam que, no último ano, a rede pública registrou 968 atendimentos relacionados a transtornos alimentares, sendo quase 300 casos com necessidade de internação.

Outro ponto de preocupação é a participação de profissionais de nutrição na produção desse tipo de conteúdo. O Conselho Federal de Nutrição informou que tem recebido um número crescente de denúncias e reforçou que práticas que incentivam restrições extremas violam o código de ética da profissão.

A influenciadora Mirian Bottan, que já enfrentou bulimia, alerta para a dificuldade de identificação do problema. “Quem tem transtorno alimentar muitas vezes não se reconhece como alguém que o possui. Eu mesma parecia saudável, mas não estava”, relatou.

Entre os sinais de alerta estão longos períodos sem comer, obsessão por calorias, evitar refeições em público e comportamentos compensatórios após a alimentação. A recomendação é buscar ajuda médica e psicológica ao identificar esses indícios.

As plataformas digitais afirmam que proíbem conteúdos que promovam transtornos alimentares. O TikTok informou que remove postagens que violam suas diretrizes, enquanto a Meta declarou adotar medidas de proteção, especialmente para usuários menores de idade.

da Redação

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