Elba Ramalho comanda tradicional virada junina no Parque do Povo em noite de recorde de turistas

A véspera de São João levou uma multidão ao Parque do Povo nessa terça-feira (23), consolidando-se como uma das datas mais emblemáticas d’O Maior São João do Mundo, em Campina Grande. O evento atraiu caravanas de diversas regiões do país e foi marcado pelo tradicional show de Elba Ramalho na transição para o dia 24, além de estreias sinfônicas e lições de inclusão no palco principal. Nem mesmo a chuva que caiu na Rainha da Borborema desanimou o público, que disputou cada espaço do Quartel General do Forró.

A projeção nacional do evento atrai anualmente visitantes que antes acompanhavam a grandiosidade da festa apenas pelos meios de comunicação. É o caso do paulista Rubens Ferreira, que viajou de São Paulo acompanhado do parceiro, Everton Araújo, motivado pelo desejo de assistir à apresentação de Elba Ramalho em solo paraibano. Ele revelou que nutria esse sonho desde a infância e que tem uma forte ligação com a discografia da artista.

“Eu esperei 35 anos pra isso. Desde pequenininho que eu sempre alimentei a esperança de ver ela em Campina Grande, e hoje eu vou realizar. Eu conheço a obra da Elba inteira. Desde Capim do Vale, que é o primeiro disco, até o último. Relação afetiva, né? Mas aí já tem uma história inteira, desde pequeno. Campina Grande é conhecida no Brasil inteiro, todo mundo quer vir pra cá pra ver o que acontece, e aí hoje eu vou vivenciar isso”, relatou Rubens.

A forte presença de turistas de estados do Sul e Sudeste foi uma constante na noite. Vinda do Rio de Janeiro, Elenice Bastos destacou a força cultural do calendário junino do Nordeste, comparando a experiência do vivo com as transmissões televisivas.

“A gente sempre ouve falar, né? Quem mora mais lá para o Sul, no Rio, vê pela televisão. Aí a gente fica com vontade de conhecer o maior São João do Brasil, principalmente por causa do dia de hoje, que é a véspera”, disse.

Já a paranaense Beatriz Andrade, moradora de Pato Branco, traçou um paralelo entre a importância da virada junina para a região e outras grandes festas nacionais, elogiando também a hospitalidade local.

“Essa virada é como se fosse o Carnaval para o Rio de Janeiro, né? E o Ano Novo para todo o país. Estou achando o povo bem receptivo, a festa é grandiosa mesmo, super recomendo. O pessoal é bem acolhedor, estou muito feliz. Se eu tiver a oportunidade de vir novamente, quero trazer a minha família”, avaliou.

Comandando a transição de datas no palco principal há mais de três décadas, Elba Ramalho iniciou sua apresentação por volta das 23h30. Momentos antes do show, em entrevista coletiva, a cantora compartilhou o sentimento de retornar a Campina Grande e refletiu sobre o papel da cidade no cenário cultural e econômico do Nordeste.

“É uma boa brincadeira, ao mesmo tempo em que a gente tem uma preocupação grande em trazer uma coisa boa. Quando chega em Campina, fica tudo diferente. A emoção redobra, e você fica pensando que, mais uma vez, está pisando no palco de uma cidade que lhe deu régua, compasso. É uma festa muito alegre, muito nossa, e Campina se colocou em um patamar elevadíssimo, como uma das melhores. A gente fica feliz de ver que Campina também é um modelo para que outras cidades melhorem e invistam nas suas festas”, declarou.

Durante a coletiva, Elba também abordou a discussão sobre a descaracterização dos repertórios nas festas juninas e defendeu a centralidade dos ritmos nordestinos no período, lembrando debates em que se envolveu anteriormente.

“Essa é a responsabilidade da administração pública também, dos fomentadores culturais. De repente, você terceiriza uma festa e o cara vem com uma visão, entre aspas, comercial, e aí ele vai trazer as duplas sertanejas. Eu não estou, em nenhum instante, incomodada com duplas sertanejas. Confesso a vocês que levantei essa bandeira há uns anos atrás. Fui eu que levantei essa bandeira e acabou dando aquele problema todo de ficar mal com meus colegas sertanejos. Eu gosto, só que acho que junho é o São João, e São João é pra nossa cultura. Então, há umas pequenas pontuações, mais eu não me envolvo nessa questão. Faço questão de me preocupar só com o que eu faço. Eu canto o que eu faço, o que eu gosto, o que eu sei, tenho autoridade para fazer”, pontuou a artista, que desfilou clássicos como Frevo de Mulher, Fogaréu, Cenário de Amor, De Mala e Cuia, Eu Só Quero Um Xodó e Pagode Russo.

Exatamente à meia-noite, o show foi pausado para a tradicional queima de fogos que celebra o Dia de São João. O espetáculo pirotécnico iluminou o céu da cidade por cerca de três minutos, ao som de Olha Pro Céu. Na reta final da apresentação, Elba dividiu o microfone na música Ai Que Saudade D’ocê com uma criança da plateia e projetou o futuro da tradição. “Olha, daqui uns anos eu vou estar ali na plateia, eu vou estar assistindo você cantar nesse palco”, disse a cantora à menina.

Elba reforçou seu papel de madrinha das novas gerações de músicos. “Estou sempre abraçando, principalmente, artistas novos. Minha carreira foi feita trazendo artistas novos. Eu podia ter cantado salsa, cantado samba, podia ter desviado para outras coisas. Até faço isso no meu trabalho, mas não é uma coisa que me representa. O que me representa é a cultura popular nordestina brasileira”, concluiu, encerrando o espetáculo à 1h20 com a canção Isso Aqui Tá Bom Demais.

A madrugada seguiu com a apresentação do cantor cearense Guilherme Dantas, que encerrou a programação oficial da véspera. Sendo um dos primeiros artistas com deficiência visual a ocupar o posto de atração principal do evento, sua performance contou com uma estrutura de acessibilidade montada especialmente no palco para garantir sua locomoção, orientação espacial e segurança. Cumprindo seu quarto ano consecutivo na grade do evento, o músico ressaltou a importância da representatividade.

“É uma honra, um orgulho sem tamanho estar aqui no dia 23, na véspera de São João. Eu fico muito honrado também por representar pessoas com deficiência. E aqui eu englobo todo mundo: pessoas com limitação visual, auditiva, transtorno do espectro autista. Eu acho que estar aqui é uma vitória”, celebrou.

Dantas detalhou seus critérios para a montagem do repertório, que mesclou composições próprias, clássicos e sucessos contemporâneos de forró e sertanejo, priorizando letras de teor positivo.

“Eu gosto de fazer um show que agrade a todos. Ninguém vai agradar todo mundo, mas procuro levar músicas que tragam boas energias. Divido o repertório entre minhas composições, músicas tradicionais e coisas atuais que sejam boas para quem está ouvindo. Não coloco músicas que falem mal da mulher ou tragam palavras feias. Tento manter tudo organizado dessa forma”, explicou o artista, que utilizou um figurino em homenagem aos cantores Flávio José e Santanna e convidou um sanfoneiro local para uma participação na faixa Pra Você Voltar Pra Mim.

Ao se despedir, Guilherme deixou uma mensagem motivacional ao público. “Toda vez que você ficar triste, lembre de mim. Sabe por quê? Eu tinha tudo para estar abatido em casa, sem querer nada com a vida, mas eu estou aqui no maior São João do mundo”, declarou.

A noite de véspera registrou ainda a primeira inserção de música clássica na história do palco principal do Parque do Povo, com o concerto da Orquestra Petrobras Sinfônica. O conjunto apresentou versões sinfônicas de clássicos da música nordestina, homenageando nomes como Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Alceu Valença, Sivuca e Geraldo Azevedo, incluindo no repertório peças como Anunciação, Feira de Mangaio, Gostoso Demais e Festa do Interior.

A abertura oficial da noite ficou por conta da cantora paraibana Lucy Alves, em seu retorno ao evento, seguida pelo cantor Capilé, que mantém a marca de ser o único artista a se apresentar em todas as edições da história do São João de Campina Grande.

A programação do Parque do Povo continua nesta quarta-feira (24), Dia de São João, com os shows de Vicente Nery, José Augusto, Waldonys e Fabiana Souto no palco principal, com apresentações programadas entre 17h30 e 3h.

Além disso, o público que comparecer ao Parque do Povo poderá acompanhar a partida da Seleção Brasileira contra a Escócia pela fase de grupos da Copa do Mundo, que será exibida ao vivo a partir das 19h em nove telões instalados em pontos estratégicos do complexo junino.

O Palco Cultural, a Pirâmide, o Quadrilhódromo, os coretos e as ilhas de forró iniciam as atividades com trios e artistas regionais a partir das 17h.

da Redação

WhatsApp
Telegram
Twitter
Facebook

Mais lidas

1

Manaira e Mangabeira Shopping têm horário especial na véspera e feriado de São João

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Digite o assunto de seu interesse:
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors