
A rotina de pressa e o barulho constante das motocicletas nas ruas paraibanas escondem uma realidade estatística preocupante. Um levantamento realizado pelo Núcleo de Dados da Rede Paraíba revelou que o número de acidentes de moto nas rodovias federais que cortam o estado cresceu 8,6% em 2025, na comparação com o ano anterior. O avanço da velocidade sobre duas rodas tem gerado impactos profundos não apenas na saúde pública, mas também nos cofres da Previdência Social.
De acordo com os registros da Polícia Rodoviária Federal (PRF), o ano de 2025 fechou com 1.211 acidentes envolvendo motocicletas nas BRs da Paraíba. O balanço aponta que 1.471 pessoas ficaram feridas (alta de 7,5%) e 77 perderam a vida (aumento de 6,9%). O cenário em 2026 segue em ritmo alarmante: somente até o mês de março, a PRF já contabilizou mais de 300 acidentes, mantendo uma média de três ocorrências diárias, com um saldo de 400 feridos e 16 mortes.

Causas e perfil das ocorrências
O chefe da 1ª Delegacia da PRF na Paraíba, Fábio Ramalho, destaca que a falta de responsabilidade e o desconhecimento da legislação são fatores determinantes. Segundo ele, as principais causas incluem a desobediência às normas de circulação, o excesso de velocidade — especialmente nos “corredores” entre veículos — e a embriaguez ao volante. Outro dado crítico é o aumento de condutores sem habilitação: na última Operação Verão (entre 2025 e 2026), o percentual de motociclistas flagrados sem CNH saltou de 23% para 35,7%, um crescimento de 55% em números absolutos.
Nas áreas urbanas, o fluxo de vítimas sobrecarrega as unidades de emergência. No Hospital de Trauma de João Pessoa, a média de atendimentos por acidentes de moto é de 27 pessoas por dia, totalizando mais de 2,3 mil casos apenas no primeiro trimestre de 2026. Em Campina Grande, a situação é ainda mais grave: os atendimentos saltaram de 8,8 mil em 2024 para 10,6 mil em 2025, um aumento de 21%. O coordenador da área vermelha da unidade, Matheus Matos, alerta que as lesões mais comuns envolvem traumas crânio-encefálicos graves — muitas vezes pela ausência ou uso incorreto do capacete —, além de fraturas expostas nos membros e traumas abdominais.

O custo humano e financeiro
Os relatos de sobreviventes expõem as sequelas permanentes. Francisco José, que passou por cinco cirurgias após “sobrar” em uma curva a 120 km/h, e Mateus Xavier, que derrapou na pista molhada ao tentar desviar de um pedestre, são exemplos de vidas interrompidas pela reabilitação. Já Severino Venâncio, diretor escolar no Conde, convive com o uso de muletas desde 2019 e precisou de quase dois anos de afastamento para retomar suas atividades.
Financeiramente, o impacto é bilionário. Uma internação simples de quatro dias custa cerca de R$ 6 mil ao hospital, mas casos graves que exigem UTI e múltiplas cirurgias podem chegar a R$ 400 mil por paciente. No âmbito previdenciário, o INSS pagou mais de R$ 125 milhões em auxílios-acidente em 2025, um aumento de 30% em relação ao ano anterior. Ao todo, foram concedidos quase 100 mil benefícios no último ano, entre auxílios comuns e acidentários (relacionados ao trabalho).
Orientações jurídicas
Para quem sofreu um acidente e ficou com a capacidade de trabalho reduzida, o advogado previdenciário Edivanildo Nunes orienta a organização da documentação médica e pessoal para requerer o benefício via site ou aplicativo “Meu INSS”. Ele ressalta que, em caso de negativa administrativa, o processo judicial na Justiça Federal costuma ser mais ágil, levando cerca de seis meses para o reconhecimento do direito, enquanto na Justiça Estadual o tempo médio de espera pode chegar a dois anos.
da Redação