Cientista político defende mobilização popular de Lula para enfrentar Congresso oposicionista

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai precisar ampliar o diálogo direto com a população para conseguir governar diante de um Congresso Nacional mais conservador e com forte presença da oposição. A avaliação é do cientista político Gonzaga Júnior, feita em entrevista à Rádio BandNews FM (101,1 MHz) nesta segunda-feira (26).
Para o analista, a reeleição de Lula não encerrou a polarização política no país. O resultado, segundo ele, revela a existência de dois grupos consolidados, mas sem que nenhum deles tenha força suficiente para exercer hegemonia.
“Não temos um polo hegemônico no Brasil. De um lado, o petismo e as políticas sociais construídas ao longo dos últimos anos; do outro, o crescimento da extrema-direita através do bolsonarismo.”
Gonzaga afirmou que o bolsonarismo não deve ser confundido com a direita tradicional. Na avaliação dele, a vitória de Lula foi possível também porque setores conservadores moderados optaram por rejeitar o radicalismo associado à extrema-direita.
Críticas à prioridade dada ao déficit fiscal
Ao comentar a continuidade de políticas sociais, o cientista político criticou a centralidade do debate sobre equilíbrio fiscal e metas de arrecadação. Para ele, em um país marcado pela desigualdade, a prioridade deveria ser a circulação de renda e a melhoria das condições de vida da população.
“Quando se fala de política social, a pauta não é equilíbrio fiscal. O que faz diferença na vida do cidadão é o remédio no posto, a passagem de ônibus barata e juros baixos no cartão de crédito. Déficit fiscal não deve ser a preocupação da população.”
Segundo Gonzaga, o fortalecimento de pequenos e médios negócios e o controle da inflação sobre produtos consumidos pela população são caminhos para o saneamento das contas públicas.
Relação com o Congresso
O próximo mandato deverá ser marcado por uma relação difícil com deputados e senadores, afirmou o analista. Ele classificou o Legislativo eleito como mais do que conservador e contrário a propostas desenvolvimentistas.
“Mais do que conservador, será um Congresso reacionário, contrário às pautas desenvolvimentistas do país.”
Mesmo com uma bancada expressiva do PL e de partidos alinhados a Flávio Bolsonaro, Gonzaga acredita que o governo poderá aprovar matérias por meio de negociações pontuais com o Centrão. Para ele, porém, a articulação parlamentar isolada não será suficiente.
“Ou o presidente Lula desce do Palácio e vem discutir com o povo as grandes decisões de interesse da nação, ou ele não governa. Ele vai precisar sair da democracia puramente representativa e ir para a democracia participativa.”
Críticas à reação da oposição
Gonzaga também avaliou as declarações de Flávio Bolsonaro após a derrota. O cientista político considerou previsível a reação do candidato oposicionista e classificou como antidemocráticos os questionamentos feitos ao resultado das urnas e as denúncias sobre problemas no transporte durante o dia da votação.
“O discurso de Flávio demonstra mais uma vez a tônica do mau perdedor, tentando manter seu eleitorado ativo pela negação do resultado.”
O analista acrescentou que investigações financeiras e judiciais podem deixar lideranças da oposição na defensiva nos próximos meses.
Comunicação da esquerda
Na avaliação de Gonzaga, a esquerda também precisa reformular a maneira como comunica suas ações. Ele afirmou que governos progressistas implementam políticas públicas, mas não conseguem associar essas medidas a um discurso capaz de alcançar a população, especialmente nos ambientes digitais.
Como exemplo, citou a área de segurança pública. Segundo ele, o governo Lula promoveu concursos para a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal e armou as polícias, mas não conseguiu transformar essas iniciativas em uma narrativa política própria.
“Lula realizou grandes concursos da PF e PRF e armou as polícias, mas o governo não se apropria do discurso. Quem fica com a narrativa é a direita.”
O cientista político também mencionou o microempreendedor individual e o microcrédito como políticas associadas a governos de Lula, mas afirmou que a esquerda não tem dialogado adequadamente com trabalhadores das periferias.
“O MEI e o microcrédito foram criados por Lula. Mas o governo não dialoga com o trabalhador na periferia e a oposição se apropria da pauta prometendo ‘Ministério da Prosperidade’.”
Ao concluir, Gonzaga disse que a esquerda precisa atualizar sua comunicação e compreender as mudanças nas relações de trabalho e no modo de vida da população.
“A esquerda no Brasil ainda é analógica e retrógrada na comunicação. Ela precisa rejuvenescer o debate e se reaproximar da classe trabalhadora entendendo seus novos formatos de vida e trabalho”, concluiu.
da Redação




