PT da Paraíba tem rateio de fundo eleitoral questionado por setores do próprio partido

Uma moção apresentada pela Secretaria de Combate ao Racismo e pelo Coletivo Paulo Freire do PT da Paraíba questiona os critérios usados para distribuir os recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) entre candidaturas proporcionais no Estado. O documento aponta descumprimento dos percentuais mínimos de 30% para mulheres e pessoas negras e acusa a legenda de priorizar candidaturas de homens brancos.

Segundo o texto, o PT lançou 21 candidaturas na Paraíba em 2026 — oito para a Câmara dos Deputados e 13 para a Assembleia Legislativa. Do total, 12 são homens e nove são mulheres; 13 se identificam como negros e oito como brancos.

A tabela de distribuição obtida pelo site Conversa Política indica que, dos R$ 3,85 milhões destinados às candidaturas petistas no Estado, R$ 2,74 milhões (71,3%) foram para cinco homens brancos. Sete homens negros receberam R$ 335,5 mil (8,7%). Seis mulheres negras ficaram com R$ 665,9 mil, e três mulheres brancas, com R$ 103,2 mil (2,7%). Somadas, as nove candidaturas femininas receberam R$ 769,1 mil, equivalente a 19,97% do total.

O documento destaca que quatro candidatas negras foram classificadas na faixa G3, uma das de menor valor. Na disputa pela Assembleia Legislativa, Ana Araújo e Suelma Tavares ficaram nessa categoria. Para a Câmara Federal, Álex Andrade e Luíza Bernardo, que renunciou à disputa, também foram enquadradas como G3.

Entre as candidaturas de maior prioridade estão o deputado federal Luiz Couto, candidato à reeleição e identificado como homem branco, que receberá R$ 1,8 milhão, e o ex-governador Ricardo Coutinho, também homem branco e classificado como G1, com R$ 748 mil. Na Assembleia Legislativa, a maior prioridade é a reeleição da presidente estadual do PT, Cida Ramos, mulher negra, que receberá R$ 325 mil. Em seguida vêm Flávio Brasileiro e Marcos Henriques, ambos homens brancos classificados como G1, com R$ 99 mil cada.

Defesa do GTE do PT
A Coordenação do Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE) do PT da Paraíba rebateu as críticas em nota ao Conversa Política. Afirmou que a distribuição do FEFC não é definida pela direção estadual, mas segue critérios estabelecidos nacionalmente pelo partido, com foco na viabilidade eleitoral das candidaturas.

O GTE também contestou os cálculos apresentados na moção, classificando-os como “manipulados”. Segundo a coordenação, Luiz Couto e Ricardo Coutinho foram priorizados por serem considerados candidaturas competitivas, e não por serem homens brancos.

Ainda de acordo com o GTE, excluídos os valores destinados a Couto e Coutinho, os demais candidatos homens brancos receberam, juntos, R$ 198 mil, enquanto as candidaturas de pessoas negras somaram R$ 1,001 milhão. A coordenação argumenta que comparar os grupos sem considerar a viabilidade eleitoral individual distorce os critérios adotados.

RECURSOS DOS CANDIDATOS DO PT NA PARAÍBA
Luiz CoutoDeputado FederalHomem BrancoReeleiçãoR$ 1.800.000,00
Ricardo CoutinhoDeputado FederalHomem BrancoG1R$ 748.000,00
Gabi BenvenuttyDeputada FederalMulher NegraG2R$ 243.100,00
Pedro MatiasDeputado FederalHomem NegroG2R$ 187.000,00
Álex AndradeDeputada FederalMulher NegraG3R$ 38.896,00
Enfermeira Mary PriscilaDeputada FederalMulher BrancaG3R$ 38.896,00
Luiza BernardoDeputada FederalMulher NegraG3R$ 38.896,00
Saulo DantasDeputado FederalHomem BrancoG4R$ 0,00
Cida RamosDeputada EstadualMulher NegraReeleiçãoR$ 325.000,00
Flávio BrasileiroDeputado EstadualHomem BrancoG1R$ 99.000,00
Marcos HenriquesDeputado EstadualHomem BrancoG1R$ 99.000,00
Dr. JeffersonDeputado EstadualHomem NegroG2R$ 24.750,00
Jânio PereiraDeputado EstadualHomem NegroG2R$ 24.750,00
Noca RibeiroDeputado EstadualHomem NegroG2R$ 24.750,00
Prof. Stenio SoaresDeputado EstadualHomem NegroG2R$ 24.750,00
Professor Edileudo LucenaDeputado EstadualHomem NegroG2R$ 24.750,00
Rosely LouzadaDeputada EstadualMulher BrancaG2R$ 32.175,00
Teresinha DantasDeputada EstadualMulher BrancaG2R$ 32.175,00
Valdenicio da FETRAFDeputado EstadualHomem NegroG2R$ 24.750,00
Ana AraújoDeputada EstadualMulher NegraG3R$ 10.000,00
Suelma TavaresDeputada EstadualMulher NegraG3R$ 10.000,00
TOTAL GERALR$ 3.850.638,00

Confira a nota na íntegra
Nota da Coordenação do Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE) – PT da Paraíba

1. O Partido dos Trabalhadores é uma organização nacional. Logo, todas as decisões são tomadas com base no conjunto do partido, nacionalmente. As decisões relativas às eleições de 2026 são aplicadas a todos os estados. Dessa forma, a distribuição dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) segue regras adotadas em todo o Brasil. A direção local na Paraíba não determina essa distribuição.

2. O principal critério para a distribuição do FEFC é a viabilidade eleitoral. Sendo assim, candidatos à reeleição, personalidades políticas relevantes ou políticos que tenham exercido mandatos e tenham chances reais de vitória recebem a maior parte dos recursos destinados, independentemente de qualquer critério racial ou de gênero.

3. Na moção apresentada, existe uma manipulação de dados que esconde os critérios prioritários nacionais, definidos por todos os membros da direção nacional, inclusive pela Secretaria Nacional de Combate ao Racismo.

4. No caso da Paraíba, duas candidaturas consideradas prioritárias e com chances reais de vitória — as do deputado federal Luiz Couto e do ex-governador Ricardo Coutinho — receberam, juntas, R$ 2.548.000,00, que, coincidentemente, são homens e brancos. Os valores não foram definidos por qualquer critério racial ou de gênero, mas, sim, com base na viabilidade eleitoral.

5. Restou a todos os demais candidatos homens brancos a quantia de R$ 198.000,00, ou seja, bem menos que os R$ 1.001.392,00 destinados aos candidatos negros, homens e mulheres, pelo Partido dos Trabalhadores na Paraíba.

6. Como forma de comparação, em diversos estados brasileiros, a exemplo da Bahia, de Alagoas, do Rio de Janeiro e de outros, as candidaturas de homens e mulheres negras receberam mais recursos que as demais. Isso ocorre, exatamente, por haver candidatos e candidatas negras com maior chance de vitória, como é o caso da candidatura ao Senado de Benedita da Silva, no Rio de Janeiro.

7. Dessa forma, a referida moção se pauta em dados manipulados, numa tentativa de distorcer a prática do Partido dos Trabalhadores, que sempre foi pautada pelo respeito e pela busca de mecanismos que reparem as injustiças raciais praticadas no Brasil.

da Redação

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