Rui Leitão

Jornalista, escritor, membro da Academia Paraibana de Letras (APL) e Diretor de Rádio e TV da Rádio Tabajara.

Instagram: @cezar1937

Dom Helder: o mensageiro da esperança

Em 15 de agosto de 1968, uma multidão tão grande compareceu ao Teatro Santa Roza, em João Pessoa, para ouvir Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que o evento precisou ser transferido para a Praça Pedro Américo. Em um palanque improvisado, Dom José Maria Pires abriu a solenidade de instalação do Instituto de Formação para o Desenvolvimento, seguido pelo economista Ronald de Queiroz, que apresentou Dom Hélder como um destacado humanista latino-americano.

Dom Hélder iniciou sua conferência afirmando que o povo brasileiro e latino-americano vivia marginalizado por estruturas injustas que precisavam ser transformadas. Explicou por que a Igreja discutia temas sociais, reconhecendo sua dívida histórica com os oprimidos. Defendeu que a violência já existia na sociedade, mas rejeitou a ideia de uma luta armada, afirmando que seria esmagada por forças imperialistas e transformaria o Brasil em um “grande Vietnã”. Apresentou então o Movimento de Pressão Moral Libertadora, baseado nos Direitos Humanos: fim da servidão, direito à vida e segurança, e direito ao trabalho digno. Chamou atenção para os problemas do Nordeste e para a responsabilidade social dos estudantes, lembrando que a tradição universitária sempre esteve ligada às grandes causas nacionais.

Ao final, estudantes relataram o clima de medo causado pela repressão policial e pela prisão de colegas. Diante da forte presença do DOPS, Dom Hélder encerrou convocando todos a retornarem pacificamente às suas casas. A multidão atendeu ao seu apelo e dispersou-se sem incidentes, marcando a noite como um momento histórico. Estive presente nesse acontecimento inesquecível.

Dom Hélder, se destacou durante a ditadura militar como defensor dos pobres, dos direitos humanos e da justiça social. Era um pregador da não-violência, e, por isso, foi indicado várias vezes para o Prêmio Nobel da Paz. No entanto, por ter sido um dos mais corajosos denunciadores de violações dos direitos humanos, torturas e prisões políticas, os ditadores brasileiros exerceram influência no sentido de que seu nome não fosse aceito para receber tal honraria.

Foi uma figura importante na corrente de pensamento da Igreja Católica, surgida na América Latina nos anos 1960, que viria a se chamar a Teologia da Libertação, que defendia a libertação das pessoas das condições econômicas e sociais injustas, fazendo com que a Igreja fizesse “opção preferencial pelos pobres”. Sua voz ultrapassou fronteiras.

Em 2017, foi declarado Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos e, em 2025, teve seu nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroinas da Pátria. Sua mensagem de compromisso cristão com os pobres, trabalhando por justiça e direitos humanos — num tempo de opressão — permanece atual em contextos de desigualdade, violência ou exclusão social. Tornou-se a figura central do catolicismo progressista brasileiro, fazendo com que suas ideias tivessem um enorme impacto político numa época em que o país vivia sob um regime de opressão, o que lhe rendeu a pecha de “comunista” por parte dos setores conservadores. Desempenhou papel crucial na organização da Igreja Católica brasileira, especialmente na resistência democrática durante a ditadura.

* Os textos e vídeos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Paraíba Dia a Dia.

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