
A Justiça da Paraíba ainda não concluiu o processo contra Marvin Henriques Correia, acusado de acompanhar por mensagens a execução da família de Marcos Campos Nogueira, ocorrida há 10 anos na Espanha. O caso voltou a avançar em março de 2026, quando o Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou um recurso da defesa que pretendia levar a discussão ao Supremo Tribunal Federal (STF).
A decisão manteve a ação penal em andamento no estado. Para Walfran Campos, irmão de Marcos, cunhado de Janaína Santos Américo e tio de Maria Carolina e David, a demora representa uma espera por justiça que se prolonga há uma década.
“O Marvin é a cara da impunidade no Brasil. Como é que um cara desse ainda não foi a júri popular?”, afirmou Walfran em entrevista ao portal G1.
Marvin é acusado pelo Ministério Público de ter acompanhado o crime por meio de conversas com Patrick Gouveia, autor confesso dos assassinatos. A defesa sustenta que ele não participou das mortes e apenas recebeu os relatos enviados pelo amigo.
Decisões judiciais
Em 2021, Marvin foi absolvido sumariamente pela Justiça da Paraíba. A decisão considerou que não havia elementos suficientes para comprovar a participação dele nos homicídios ou a prática de uma conduta criminosa prevista no Código Penal.
O Ministério Público da Paraíba recorreu. Em fevereiro de 2023, o Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), sob relatoria do desembargador João Benedito da Silva, entendeu que existiam indícios de que Marvin teria incentivado Patrick a cometer os crimes.
Com isso, o tribunal anulou a absolvição e determinou o prosseguimento da ação penal.
A defesa recorreu novamente, mas o STJ rejeitou o pedido em 3 de março de 2026. Os ministros entenderam que a pretensão dependeria de uma nova análise das circunstâncias e das provas do processo, medida que não poderia ser feita por meio daquele recurso.
Conversas antes e depois das mortes
Registros de mensagens mostram diálogos entre Marvin e Patrick durante o período em que os crimes foram cometidos. Nas conversas, Patrick relata como matou Janaína e os dois filhos dela e, posteriormente, Marcos.
Em determinado momento, Marvin pergunta qual das vítimas foi morta primeiro. Patrick responde que foi “na mulher, depois a mais velha [a prima de três anos] e depois no moleque de um ano”.
Patrick também descreve o ataque contra Janaína e afirma que as crianças gritaram. Em outra conversa, ele demonstra preocupação com a reação de Marvin ao saber dos assassinatos:
“Eu estou feliz que tu está de boa (sic). Eu fiquei com medo de tu dizer ‘boy, acabou’. Eu tenho medo de te perder, mas eu não podia não compartilhar contigo”, escreveu.
Marvin responde rindo e chama o amigo de assassino. Patrick, então, afirma que imaginava que matar alguém provocaria uma mudança em sua própria vida.
“Eu pensei que ia mudar algo na minha vida [matar alguém]. Eu pensei que ia me sentir mais vivo”, declarou.
Segundo Walfran, Marvin teria dado orientações sobre como esconder os corpos, sugerido rotas de fuga e alertado Patrick para se alimentar e tomar cuidado para não ser surpreendido por Marcos. O familiar também afirma que os dois fizeram comentários de deboche sobre as vítimas.
“Eles riam das duas crianças e da mulher morta no chão, esquartejada”, disse.
Crime foi cometido por sobrinho da vítima
A chacina aconteceu em agosto de 2016, em um chalé na província de Guadalajara, na Espanha. Foram mortos Marcos Campos Nogueira, Janaína Santos Américo e os filhos do casal, Maria Carolina, de 4 anos, e David, de 1 ano.
Patrick Gouveia, sobrinho de Marcos, foi apontado como autor dos assassinatos, confessou o crime e foi condenado na Espanha à prisão perpétua revisável.
A relação entre Patrick e a família era próxima. Ele era sobrinho de Marcos e também mantinha amizade com Walfran. Antes da descoberta da autoria, os parentes acreditavam que a família havia sido atacada por assassinos contratados.
Walfran contou que os próprios familiares chegaram a aconselhar Patrick a procurar a polícia espanhola, pois imaginavam que ele poderia estar correndo perigo.
“Eu estava conversando com o assassino do meu irmão e não sabia”, relembrou.
De acordo com o tio, conflitos cotidianos entre Patrick e os familiares haviam desgastado a convivência antes do crime. Discussões sobre tarefas domésticas e louça suja, por exemplo, teriam contribuído para o acúmulo de ressentimentos. Na época, entretanto, ninguém imaginava que os problemas pudessem resultar na morte de quatro pessoas.
Episódio violento no Brasil
Antes da chacina, Patrick havia se envolvido em outro caso de violência. Em junho de 2013, aos 16 anos, ele esfaqueou um professor dentro de uma sala de aula em Altamira, no Pará. O homem foi atingido no pescoço e no abdômen.
Segundo Walfran, Patrick disse à família que havia reagido a episódios de bullying relacionados ao sotaque nordestino. Os pais do adolescente o encaminharam para acompanhamento psiquiátrico.
Laudos psicológicos e psiquiátricos considerados favoráveis à reinserção social levaram os familiares a acreditar que o episódio não se repetiria.
“Nós vivemos na maior inocência, imaturidade ou falta de experiência. Se soubéssemos, teríamos protegido o Marcos”, afirmou Walfran.
Uma das dúvidas que permanecem para ele é se a família poderia ter compreendido de outra forma os sinais apresentados por Patrick e evitado que ele se aproximasse novamente de Marcos.
Rotina de Marvin e silêncio da família
Segundo o advogado Sheyner Asfora, Marvin mantém uma vida reservada. Ele acompanha o pai no trabalho e se dedica aos estudos.
“Foi um trauma muito grande para ele naquela oportunidade. Ele ficou recluso. Ele segue a vida de maneira discreta, acompanhando o pai em trabalho e também se dedicando aos estudos”, afirmou o advogado.
Em 2023, Marvin falou publicamente sobre o caso pela primeira vez, em um documentário produzido na Espanha. Na ocasião, afirmou que gostaria de ser reconhecido por outros aspectos de sua trajetória, e não apenas pela relação com a chacina.
“Fiz um canal no YouTube. Eu quero realmente que as pessoas pesquisem meu nome e descubram que eu tenho muito mais coisa a oferecer do que apenas essa mancha no meu passado, que mostra uma imagem de alguém que eu não sou”, declarou.
A mãe de Patrick, Soraia, e a irmã dele, Hanna, também preferem não comentar publicamente o caso, segundo Walfran. De acordo com o familiar, as duas recusaram convites para participar de produções audiovisuais sobre a chacina, inclusive propostas com pagamento.
“Elas não querem dinheiro, querem paz”, contou.
Soraia, no entanto, continua viajando do Brasil para a Espanha para visitar Patrick na prisão. Walfran afirma que o sobrinho leva uma rotina discreta, passa boa parte do tempo lendo e recebe cartas. O tio também relatou que Patrick teria sobrevivido a um episódio de violência no presídio, quando foi colocado temporariamente em uma ala com detentos considerados perigosos.
“Decidimos ser felizes”
Para Walfran, a passagem dos anos não diminuiu a falta deixada pela morte de Marcos, Janaína e das crianças. Ao resumir o período, ele afirma que a família convive com “10 anos de saudade e 10 anos de vergonha”.
A saudade, segundo ele, está relacionada à ausência dos quatro familiares. A vergonha mencionada por Walfran se refere à demora no andamento do processo contra Marvin.
Apesar disso, ele afirma que os parentes decidiram continuar a vida e não permitir que a tragédia determine o futuro da família.
“Decidimos ser felizes”, declarou.
Walfran diz não guardar ódio nem desejo de vingança contra Patrick ou Marvin. Para ele, perdoar não significa abrir mão da responsabilização criminal.
“Eu sinceramente não guardo ódio ou sentimento de vingança de ninguém. Se eu guardasse, já teria feito algo. Eu só quero justiça”, afirmou.
“Perdoar não significa que a justiça não seja feita. Todo crime tem consequência e o autor tem que responder perante a lei. Se isso é perdoar, eu perdoei.”
Ao lembrar das vítimas, Walfran afirma manter a esperança de que Marcos, Janaína, Maria Carolina e David estejam em um lugar melhor.
“Minha esperança e fé é que eles estejam num lugar melhor do que nós”, concluiu.
da Redação com G1 Paraíba