
Com cerca de dois meses até o início das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, estudantes que não conseguiram manter uma rotina regular de preparação ainda podem melhorar o desempenho. Professores afirmam, no entanto, que o período exige foco e planejamento diferentes dos adotados em uma preparação de longo prazo.
A recomendação é evitar a tentativa de revisar todo o conteúdo de uma vez. Em vez disso, os candidatos devem priorizar temas recorrentes, resolver questões de provas anteriores, produzir redações e participar de simulados.
Para a professora de redação Josy Kelly Santos, o primeiro passo é controlar a ansiedade e concentrar os esforços em atividades capazes de mostrar resultados no curto prazo.
“O importante nesta reta final é manter a calma e focar naquilo que funciona: resolução de questões (simulado). Apesar do pouco tempo, ainda há esperança”, afirma.
Segundo ela, a rotina deve incluir horários definidos para estudo, produção de pelo menos uma redação por semana e resolução de exercícios. A preparação sem organização, baseada na tentativa de estudar conteúdos isolados, pode aumentar a insegurança e reduzir a eficiência do tempo disponível.
Redação exige domínio da estrutura
Para os candidatos que ainda têm pouca experiência com a prova discursiva, a prioridade deve ser compreender o modelo exigido pelo Enem e os critérios usados na correção.
O texto precisa seguir a estrutura dissertativo-argumentativa e apresentar uma proposta de intervenção para o problema discutido. Conhecer as competências avaliadas ajuda o estudante a organizar a argumentação e evita perdas de pontos por desconhecimento das exigências.
Josy recomenda a leitura detalhada das competências e a análise de redações que receberam nota mil em edições anteriores. A proposta não é decorar modelos prontos, mas identificar como introdução, desenvolvimento, argumentação, conclusão e proposta de intervenção aparecem em textos bem avaliados.
A professora também desaconselha o uso de citações ou referências memorizadas para serem aplicadas a qualquer tema.
“Repertório coringa JAMAIS. O candidato, mesmo na reta final, precisa estudar por eixos temáticos (saúde, educação, meio ambiente, tecnologia, social e cultural) e, principalmente, confiar no seu conhecimento de mundo, ou seja, nos filmes, livros, contextos históricos ou atuais que ele já estudou”, destaca.
Filmes, livros, acontecimentos históricos e temas contemporâneos podem contribuir para a argumentação, desde que tenham relação efetiva com o assunto proposto. Conhecimentos de disciplinas como História, Biologia e Literatura também podem ampliar o repertório do candidato.
Matemática: priorizar conteúdos recorrentes
Em Matemática, o professor José Ferreira Lima Neto recomenda abandonar a ideia de recuperar todo o programa da disciplina em poucos meses. O foco deve ser a consolidação de assuntos frequentes e com maior potencial de garantir acertos nas questões fáceis e médias.
Entre os conteúdos indicados estão operações básicas, frações, números decimais, razão e proporção, regra de três, porcentagem, conversão de unidades, gráficos, tabelas, estatística básica, geometria plana, Teorema de Pitágoras, escalas, volumes, equações do primeiro grau e função afim.
Dentro dessa relação, o professor destaca como prioridades regra de três, porcentagem, interpretação de gráficos e tabelas, estatística básica e geometria.
“São conteúdos que apresentam um bom custo-benefício para o estudante que dispõe de pouco tempo e precisa direcionar os estudos para questões mais acessíveis da prova”, explica.
Segundo José Ferreira, o caminho mais produtivo não é decorar uma grande quantidade de fórmulas, mas desenvolver a capacidade de interpretar os enunciados e aplicar operações e conceitos básicos.
“Em dois meses, é muito mais eficiente dominar bem alguns conteúdos recorrentes e resolver muitas questões fáceis e médias do Enem do que tentar estudar superficialmente todo o programa de Matemática”, afirma.
Questões ajudam a corrigir erros de interpretação
O professor alerta que muitos erros em Matemática não ocorrem por falta de conhecimento, mas por problemas de leitura e interpretação.
Entre as falhas mais comuns estão responder a uma etapa intermediária em vez da pergunta principal, esquecer conversões de unidades, confundir área com perímetro, aplicar porcentagem sobre uma base incorreta e interpretar de forma equivocada gráficos, escalas ou intervalos.
Também é importante prestar atenção a termos como “diferença”, “total”, “restante”, “maior”, “menor” e “aproximadamente”, que podem mudar completamente o que a questão solicita.
A orientação é, antes de iniciar os cálculos, identificar o objetivo do enunciado, separar os dados necessários e verificar a unidade em que a resposta deve ser apresentada. Depois da resolução, o candidato deve conferir se o resultado encontrado responde exatamente ao que foi perguntado.
A prática com questões de edições anteriores do Enem pode tornar esse procedimento automático até o dia da prova.
Simulados treinam conhecimento e tempo
Além de medir o nível de aprendizagem, os simulados permitem identificar em quais etapas o estudante demora mais e como o tempo está sendo distribuído.
No primeiro dia do Enem, os candidatos terão cinco horas e meia para responder às questões de Linguagens e Ciências Humanas e elaborar a redação. Por isso, a recomendação é reproduzir, nos treinamentos, condições semelhantes às do exame.
Josy Kelly orienta que o estudante reserve até duas horas para escrever a redação durante os simulados. Ultrapassar esse limite de forma recorrente pode reduzir o tempo disponível para responder às demais questões.
José Ferreira também recomenda exercícios cronometrados. A prática ajuda a revelar quais conteúdos, tipos de questão ou etapas da prova consomem mais tempo e precisam ser ajustados.
Como organizar duas ou três horas por dia
Mesmo para quem precisa conciliar os estudos com escola, trabalho ou outras atividades, o professor considera possível criar uma rotina objetiva.
Uma hora diária dedicada à Matemática pode ser dividida em três momentos: 30 minutos para resolver questões, 20 minutos para corrigir e analisar os erros e 10 minutos para revisar o conteúdo ou refazer exercícios que apresentaram dificuldade.
Uma vez por semana, esse período pode ser substituído por um bloco de questões com tempo controlado.
A recomendação é não concentrar a preparação apenas em videoaulas ou na reprodução de conteúdos teóricos. Para José Ferreira, a sequência mais eficiente é resolver, corrigir, entender o erro e tentar novamente.
Autoconfiança também faz parte da preparação
A percepção que o estudante tem sobre a própria capacidade pode interferir no desempenho em Exatas. Por isso, o professor recomenda substituir a afirmação “sou péssimo em matemática” por uma avaliação mais concreta: ainda não dominar determinados conteúdos não significa ser incapaz de aprendê-los.
A pouco mais de dois meses do exame, o objetivo não precisa ser dominar toda a disciplina. A prioridade é garantir os pontos possíveis a partir dos assuntos mais acessíveis e recorrentes.
“Não é preciso saber tudo; é preciso aprender o próximo passo e garantir os pontos que estão ao alcance”, afirma.
Preparação deve ser direcionada
Na reta final, as orientações dos professores se concentram em três pontos: estratégia, prática e regularidade.
Para a redação, o estudante deve compreender a estrutura exigida, estudar as competências avaliadas, escrever semanalmente e construir repertório por eixos temáticos, sem depender de citações genéricas.
Em Matemática, o caminho é selecionar os conteúdos mais frequentes, resolver muitas questões e revisar os erros. Os simulados devem ser usados tanto para avaliar o conhecimento quanto para treinar interpretação, ritmo e administração do tempo.
Assim, os 66 dias restantes não precisam ser encarados como uma tentativa de recuperar todo o conteúdo acumulado. A orientação é estabelecer prioridades, manter constância e aproveitar o período para aprender aquilo que ainda pode resultar em pontos na prova.
da Redação