Leticia Albuquerque

Jurista e eterna aprendiz, em jornada de autodescoberta, refinamento e amadurecimento.

Instagram: @adv.leticia.albuquerque

A Velha Casa

A velha casa nunca esteve abandonada, embora, em certas épocas do ano, o mato crescesse acima do muro e as paredes exibissem manchas de mofo, não por desleixo, mas por falta de tempo, de dinheiro e de atenção aos detalhes.

Lá morava uma família: o pai, a mãe e duas filhas pequenas.

A casa de esquina ficava em uma área de transição entre um bairro nobre e a periferia, o que provocava em Anne, a filha mais nova, uma espécie de crise de identidade. Ela se perguntava: “Afinal, somos ricos ou pobres”? Do mesmo modo que questionava a existência dos dinossauros.

Anne sempre foi a mais sensível da família. Enquanto os outros se ocupavam de tarefas práticas, ela se perdia em pensamentos e emoções profundas. Aos 35 anos, continua assim… Contudo, voltemos à velha casa.

Ela ficava em frente a um mercado público, um ambiente barulhento e impregnado pelo cheiro de esgoto. À esquerda, havia um posto de gasolina frequentemente assaltado. De vez em quando, alguém morria por ali, vítima das guerras entre facções.

Anne assistia a tudo pela janela do quarto, que dava para o posto. Tinha medo da violência, lamentava cada vida ceifada e, apesar de tudo, mantinha esperança em dias melhores que, por graça divina, vieram. Amém!

O terreno era grande. A casa dividia-se em três partes: a residência principal; a garagem no térreo, que o pai transformou em bar; e um quartinho lateral que servia como sala comercial. Esse espaço já foi bomboniere, salão de beleza, loja de roupas, oficina mecânica e, por fim, uma ótica.

Outro detalhe marcante era o piso de madeira e os azulejos com figuras geométricas: azuis na cozinha, rosas no banheiro.

A casa tinha duas salas, dois quartos, uma cozinha, um banheiro, um terraço e um jardim cheio de plantas que a mãe de Anne cultivava com carinho. Havia um pé de pinha e outro de maracujá, cujas flores, dizem, simbolizam o sacrifício de Cristo. Nos dias tristes, Anne gostava de se refugiar ali, às vezes, esquecia que tinha um jardim tão bonito.

Nos tempos áureos, quando todos a chamavam de “casa boa”, havia um jardim de inverno entre as salas e uma piscina de água gelada, perfeita para os dias quentes. Com o tempo, porém, a casa perdeu o brilho e começou a ser chamada de mal-assombrada. Diziam ver vultos; copos quebravam sozinhos; cadeiras se moviam do nada…

Anne, porém, nunca presenciou nada de anormal, apenas a irmã, que às vezes acordava gritando, dizendo ver crianças. Nesses momentos, Anne morria de medo e corria para o quarto dos pais.

Tirando as “visões” da irmã, a infância das meninas foi boa. A mãe era dedicada e o pai, embora pouco afetuoso, esforçava-se para que nada faltasse à família.

Anne nunca gostou de ficar sozinha na casa. Quando precisava, colocava música alta e, às escondidas, tomava uma dose de cachaça ou de licor “para animar”. Não herdou o vício do velho avô, talvez porque nunca tenha visto graça na embriaguez.

Mesmo assim, houve uma fase em que, toda sexta-feira, trancava-se no quarto com alguma bebida e dançava sozinha ao som de músicas eletrônicas. Isso já no início da adolescência.

Foi nesse período que começou a enxergar o mundo com mais nitidez. Da janela, via brigas de bêbados no bar do pai. Uma vez, impediu um homem de acertar uma pedra na cabeça de outro.

— Isso pode matar! Gritou.

O homem se envergonhou e foi embora. Ufa!

Há um trecho em “Força Estranha”, de Caetano Veloso, que sempre a faz lembrar desses dias: “Eu vi muitos homens brigando, ouvi seus gritos, estive no fundo de cada vontade encoberta”. Anne se emociona ao ouvir e, ao mesmo tempo, sente-se aliviada por tudo aquilo ter ficado no passado.

A família viveu trinta anos na velha casa, trinta anos de glória e desgraça, como é o fluxo da vida. A primeira a sair foi a irmã, que se casou e foi morar do outro lado da cidade. Ficaram Anne, os pais e três cachorros.

Com o tempo, perceberam que já não cabiam ali, cercados por comércios durante o dia e violência à noite. O pai decidiu vender o imóvel. Não foi fácil, mas conseguiu. Uma construtora comprou o terreno – não a casa – que foi demolida.

O pai de Anne assistiu à demolição emocionado. Lá viveram três décadas inteiras. Anne nunca o tinha visto chorar.

Quando finalmente partiram, ele, supersticioso, disse:

— Saiam com o pé direito e não olhem para trás.

E assim, sem olhar, deram adeus à velha casa.

* Os textos e vídeos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Paraíba Dia a Dia.

WhatsApp
Telegram
Twitter
Facebook

Mais lidas

1

Noite católica d’O Maior São João do Mundo reúne Padre Nilson Nunes e atrações religiosas no Parque do Povo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Digite o assunto de seu interesse:
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors