
Este texto é sobre a (im)previsibilidade comportamental de uma jovem mulher. Vamos chamá-la assim apenas por conveniência. Uma jovem mulher que precisava ser séria em ocasiões que exigiam seriedade. No entanto, não conseguia.
Não é exagero! Ela tinha crises de riso em congressos, consultas médicas, sessões de psicanálise, aulas, encontros religiosos, velórios e qualquer outro ato solene. Tudo sem querer. Ela simplesmente não conseguia conter o riso.
Embora as crises de riso parecessem um estado de felicidade, na verdade, não eram bem isso. E a nossa protagonista sentia a amargura do constrangimento. “Que vexame!”, pensava.
Ao chegar em casa, buscava refúgio nas músicas, tentando não pensar nos julgamentos alheios sobre seu comportamento. Cantava “The Sound of Silence”, de Simon & Garfunkel, e “Enjoy the Silence”, do Depeche Mode. Duas visões tão diferentes sobre o mesmo tema: o silêncio. Tudo o que ela precisava depois de passar vergonha com suas risadas incontidas.
Também desviava o pensamento ouvindo Whitney Houston em “I Have Nothing”, imaginando amores que nunca existiram.
“Para que sofrer por amor?”, indagava-se ao som da canção.
Assim, ia esquecendo os constrangimentos e distraindo-se com outros pensamentos. Sofrer por amor parecia-lhe uma ideia tola. Ela já havia tentado três ou quatro vezes e concluído que não valia a pena. Amores vêm e vão o tempo todo.
E a jovem mulher, que não conseguia ser séria quando devia, também não conseguia sofrer por amor. Alguns confundiam isso com apatia. Na verdade, era apenas o seu jeito de seguir em frente.
No entanto, voltemos às crises de riso em situações impróprias da nossa jovem mulher. Uma vez, durante uma apresentação na faculdade, um professor, atordoado com a situação, mandou que ela fosse beber água. Foi, voltou e continuou rindo. O mesmo aconteceu em uma sessão com a psicóloga, que precisou encerrar o encontro mais cedo. A pior crise ocorreu em um elevador comercial lotado: ela riu do nada, talvez porque tenha achado os rostos sérios demais para um lindo dia de verão.
Curiosamente, essa jovem mulher, que ria em momentos indevidos, não conseguia chorar. Exceto quando perdeu sua cachorrinha Sacha. Naquele dia, as lágrimas vieram com força. É difícil não conseguir chorar. O choro alivia, limpa, reorganiza. Mas ela não conseguia.
Recomendaram-lhe a medicina baseada em evidências, exorcistas, médiuns, curandeiros e orações de pastor. A jovem mulher tentou de tudo. Até comeu cérebro de boi, porque disseram que era bom para problemas desse tipo. Cada um dizia uma coisa.
E todas essas pessoas, com suas verdades absolutas, deixaram-na à deriva. Ela caminhava pela casa sem rumo, com os pensamentos embaralhados e os sentimentos fora do lugar. Queria ir ao banheiro e acabava parando na cozinha. Uma espécie de embriaguez sem álcool.
A jovem mulher, que não conseguia ser séria, agora se sentia atordoada. E então aconteceu o inverso. Ela, que antes ria em horas erradas, agora era séria o tempo todo, até quando poderia sorrir. Até as canções perderam o sentido. Veio a melancolia e o silêncio.
A jovem que ria sem motivo e que não conseguia chorar agora chorava escondida pelos cantos.
Diziam que ela precisava se esforçar para sair daquela situação. Também ouvia muitas palavras duras, quando o que precisava era de ternura.
“Palavras duras em voz de veludo”, já cantavam os Paralamas. Mas, no caso dela, as vozes eram ásperas, amargas. E seguir em frente sem se importar com isso era uma tarefa difícil.
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