
A história brasileira registra episódios que nos obrigam a refletir sobre os perigos do autoritarismo e sobre a importância de preservar a liberdade de organização e de manifestação política. A invasão da sede da União Nacional dos Estudantes (UNE), no Rio de Janeiro, logo após o golpe militar de 1964, é um desses acontecimentos que permanecem como advertência às novas gerações.
Na madrugada de 1º de abril de 1964, a sede da UNE foi invadida e incendiada por grupos contrários ao movimento estudantil. A entidade, que representava uma juventude mobilizada em defesa de reformas sociais e da democracia, tornou-se um dos primeiros alvos da repressão que se instalou no país. O ataque simbolizou o propósito de intimidar estudantes, sufocar a organização política e eliminar espaços de resistência ao novo regime.
Mais de seis décadas depois, a UNE volta ao centro do debate político. A campanha de Flávio Bolsonaro acionou o Tribunal Superior Eleitoral contra entidades sindicais, movimentos estudantis e organizações sociais que, segundo a acusação, estariam utilizando suas estruturas em benefício da candidatura de Lula. A iniciativa inclui pedidos de restrição à atuação de entidades e de responsabilização eleitoral.
A lembrança de 1964 torna inevitável uma pergunta: que democracia estamos construindo quando a participação política de estudantes e de suas entidades passa a ser tratada como um problema a ser eliminado?
A UNE tem uma longa trajetória de participação na vida nacional. Seus integrantes têm o direito de defender ideias, apoiar propostas e criticar candidatos.
A democracia não exige que estudantes sejam neutros, silenciosos ou indiferentes aos destinos do país. Exige que possam se organizar livremente.
A sede da UNE foi atacada em 1964 num contexto de ruptura democrática e repressão política. Hoje, a defesa das instituições democráticas exige que não se repitam práticas de intimidação nem se transforme a disputa eleitoral em instrumento para restringir, indiscriminadamente, a participação da sociedade.
A UNE sobreviveu à ditadura e continuou participando da vida brasileira. Sua história nos lembra que a democracia não se fortalece silenciando estudantes, mas garantindo que possam pensar, se organizar, debater e participar, mesmo quando suas escolhas desagradam aos poderosos.
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