
Aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) dizem que ele está a caminho dos Estados Unidos, para onde segundo eles o senador decidiu fugir dois dias depois de perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O voo, dizem, deve pousar em algumas horas.
Esses interlocutores do político, que se dizem contrários à fuga, dizem que o plano foi organizado e viabilizado por um advogado próximo do clã Bolsonaro. O senador está incomunicável, e o coordenador de sua campanha, Rogério Marinho, negou inicialmente a fuga.
O senador não reconheceu a derrota para Lula, mas desistiu de protocolar ação pedindo a anulação da eleição devido ao prolongamento do horário de votação no domingo. Apenas 0,03% dos votos foram registrados no período extra de duas horas, determinado pela Justiça devido à falta de ônibus em várias cidades.
Segundo esses aliados de Flávio, a decisão foi tomada nessa segunda-feira (26), após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes mandar recolher os passaportes brasileiros e o italiano do senador, que tem cidadania do país europeu.
Flávio é investigado em duas ações criminais, sob suspeita de lavagem de dinheiro e outros crimes no âmbito do caso do Banco Master e dos desvios no INSS. A partir de fevereiro, quando deixará o mandato de senador pelo Rio, ele perde o foro privilegiado no Supremo.
Nesta terça-feira (27), a Polícia Federal (PF) cancelou o documento brasileiro de Flávio após o senador não cumprir a decisão judicial. Mas a identidade italiana segue válida. A PF emitiu um alerta para vigiar as fronteiras, mas pode ter sido tarde.
O caminho exato do ex-candidato é incerto. Na versão desses aliados, o senador viajou a partir da Argentina, mas não de Puerto Iguazú, onde um avião executivo Gulfstream tinha seu nome na lista de passageiros, mas não decolou.
O governo do aliado Javier Milei, presidente que participou do lançamento da campanha de Flávio, disse não ter registro da entrada do político no país. Se ela ocorreu mesmo, ou ocorreu de forma clandestina, ou a Casa Rosada mentiu.
A presença do nome de Flávio foi, segundo essa versão, um despiste. Ele decolou, sempre de acordo com esses aliados, de outro ponto da Argentina.
As pessoas com quem a reportagem conversou não sabem dizer para onde o primogênito de Jair Bolsonaro vai, mas é possível que se encontre na Flórida com seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que está desde o ano passado nos EUA, tendo sido condenado à prisão pelo STF.
De lá, Eduardo comandou uma campanha contra o Brasil junto ao governo Donald Trump, presidente aliado da família Bolsonaro.
O republicano não chegou a endossar publicamente a candidatura de Flávio e diz gostar de Lula, apesar dos atritos. Nessa segunda-feira, contudo, disse de forma ligeira que considerava haver suspeita de fraude na eleição brasileira, uma narrativa típica que ele adota para sua derrota em 2020 para Joe Biden.
Focado nas eleições legislativas da semana que vem, Trump não dedicou muita energia ao tema, contudo. Vários aliados do clã Bolsonaro na direita americana, como o ex-estrategista do presidente Steve Bannon, pedem que os EUA cortem relações com o Brasil, o que parece algo distante.
O ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio e Eduardo, condenado por tentativa de golpe após perder para Lula em 2022, e que cumpre prisão domiciliar, também ensaiou uma fuga do alcance judicial brasileiro, passando dois dias na embaixada da Hungria em Brasília em 2024. O país europeu era, na época, governado por seu aliado Viktor Orbán, que deixou o poder neste ano.
com Folha de S.Paulo




