
Dez anos após o assassinato de quatro integrantes de uma família paraibana na Espanha, o caso de Pioz ainda não está completamente encerrado, segundo a jornalista espanhola Bea Osa. Autora do livro Olor a muerte en Pioz, título que pode ser traduzido como “Cheiro de morte em Pioz”, ela aponta como principais questões pendentes o processo contra Marvin Henriques Correia, que tramita no Brasil, e os futuros desdobramentos da pena de Patrick Nogueira, condenado pelos crimes.
“Dez anos depois, o que mais me surpreende é que acho que este caso ainda continua aberto. Ainda está aberto porque não se sabe o que vai acontecer com Marvin. Também não se sabe exatamente o que acontecerá com Patrick no futuro”, afirmou Bea.
Para a jornalista, a condenação de Patrick respondeu judicialmente por parte do crime, mas não solucionou todas as questões que surgiram desde agosto de 2016. Patrick foi condenado pelos quatro assassinatos, enquanto Marvin continua sendo processado na Paraíba por causa das conversas que manteve com o amigo pelo WhatsApp durante a execução dos crimes.

O processo contra Marvin
Marvin foi absolvido sumariamente pela Justiça paraibana em 2021. Dois anos depois, o Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB) revogou a decisão e determinou a continuidade da ação penal. Em março de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou mais um recurso apresentado pela defesa, e o processo continua em tramitação.
A defesa de Marvin afirma que as mensagens trocadas com Patrick podem ser consideradas moralmente reprováveis, mas não configuram participação criminosa. A Justiça ainda deverá avaliar se o conteúdo das conversas permite atribuir ao brasileiro algum tipo de responsabilidade penal pelos homicídios, incluindo as hipóteses de instigação ou apoio moral.

Patrick foi o autor material das quatro mortes. Marvin, por sua vez, estava no Brasil e conversou à distância com o amigo enquanto os assassinatos aconteciam. Para Bea, essa diferença é importante e impede que a percepção de investigadores espanhóis seja tratada como uma conclusão sobre a responsabilidade penal do brasileiro no processo que tramita na Paraíba.
A jornalista contou que agentes da Guarda Civil ouvidos por ela tinham uma avaliação severa sobre a postura de Marvin. Segundo Bea, um dos investigadores chegou a dizer que, caso ele estivesse na Espanha e submetido às regras jurídicas daquele país, poderia ter sido preso e julgado por participação no crime.
Ainda assim, a jornalista afirma que a decisão sobre a existência ou não de crime cabe à Justiça brasileira. É justamente a falta de um desfecho definitivo para o processo contra Marvin que, na avaliação dela, mantém o caso aberto.

Um crime com vários elementos
A chacina aconteceu em 17 de agosto de 2016, na casa onde a família vivia em Pioz, município da província de Guadalajara. Patrick matou os tios, Marcos Campos Nogueira e Janaína Santos Américo, e os dois filhos do casal, Maria Carolina e David.
As crianças tinham 3 anos e 10 meses e 18 meses, respectivamente. Os corpos foram encontrados cerca de um mês depois. Após os assassinatos, Patrick voltou ao Brasil, mas posteriormente retornou à Espanha, onde se entregou às autoridades e confessou o crime.
Bea afirma que já acompanhou outros casos de grande repercussão, mas considera difícil encontrar um episódio semelhante ao de Pioz.
“O crime de Pioz é único por muitas razões, por reunir tantas características que o tornam excepcional”, declarou.
Segundo a jornalista, existem crimes que apresentam alguns pontos em comum com o caso. Há, por exemplo, situações envolvendo assassinatos de familiares, múltiplas vítimas, crianças mortas ou a participação de outras pessoas em algum nível. O que diferencia Pioz, na avaliação dela, é a reunião de todos esses elementos em um mesmo episódio, além da conduta de Patrick antes, durante e depois dos assassinatos.
“Poderíamos seguir ponto por ponto e encontrar um possível paralelo, sem dúvida. Mas encontrar outro caso em que tudo isso aconteça ao mesmo tempo, com tantos detalhes que o tornam excepcional, é muito complicado”, afirmou.
Um dos aspectos mais marcantes foi a conversa entre Patrick e Marvin enquanto o crime ainda estava em andamento. Quando o diálogo começou, Janaína e os dois filhos já estavam mortos, enquanto Marcos ainda não havia chegado do trabalho.
As mensagens registraram Patrick contando ao amigo o que havia acontecido. Marvin fez perguntas e conversou sobre assuntos relacionados à saída da casa, à existência de vestígios e ao que poderia ser feito depois dos assassinatos. O conteúdo foi usado tanto na investigação espanhola quanto no processo aberto contra Marvin no Brasil.
“Como Marvin foi capaz de conversar à distância com o amigo sem impedir nada?”, questionou Bea.
A reconstrução feita para o livro
O interesse da jornalista pelo caso começou quando ela foi convidada pela também jornalista espanhola Marta Robles a participar de uma coleção dedicada a crimes reais. Bea já acompanhava a investigação e estava prestes a cobrir o julgamento de Patrick.
O acesso aos documentos do processo e a possibilidade de entrevistar pessoas ligadas à apuração fizeram com que ela escolhesse Pioz para o livro publicado em 2020.
“Eu acreditava que era um caso que poderia contar com muita precisão”, disse.
Para reconstruir os assassinatos, a investigação e o julgamento, Bea consultou documentos policiais e judiciais, assistiu às gravações das sessões e entrevistou profissionais que participaram do caso.
“Eu tinha, por um lado, todo o material em papel, muitos volumes do processo sobre tudo o que havia sido a investigação policial e judicial do crime de Pioz. Depois, tinha todas as horas de gravação para rever o julgamento inteiro, com as declarações dos peritos, dos médicos-legistas, dos guardas civis, das testemunhas e, principalmente, de Patrick”, relatou.
A jornalista também conversou com policiais, médicos-legistas, psicólogos e psiquiatras. Segundo ela, cada fonte contribuiu com uma parte da reconstrução dos acontecimentos.
“Todos forneciam uma peça do quebra-cabeça para construir uma história em que, no final, tudo se encaixasse de uma maneira em que a especulação não tivesse espaço”, afirmou.
O trabalho exigiu cuidado para que a violência dos assassinatos não fosse transformada em espetáculo. Bea diz que preferiu se limitar ao que estava comprovado nos autos e nos depoimentos, sem acrescentar adjetivos, dramatizações ou hipóteses sem confirmação.
“Se nos limitamos aos fatos e não acrescentamos adjetivos, não acrescentamos dramatismo, não especulamos sobre o que poderia ter acontecido ou por que fizeram isso e não incorporamos informações que realmente não temos, conseguimos seguir um caminho que nos afasta do mórbido e do sensacionalismo”, declarou.
O julgamento de Patrick
O julgamento de Patrick começou em outubro de 2018, na Audiência Provincial de Guadalajara. Ele decidiu responder apenas às perguntas da própria defesa e admitiu diante do tribunal que havia matado os quatro familiares.
O brasileiro afirmou que sabia que queria cometer os crimes, embora não soubesse exatamente como eles aconteceriam. Também pediu perdão aos familiares e disse que gostaria de ter evitado as mortes. A acusação sustentou que os assassinatos foram planejados e contestou partes da versão apresentada pelo réu.
A capacidade mental de Patrick foi um dos principais temas discutidos durante o julgamento. Peritos forenses apontaram traços definidos de personalidade psicopática, mas concluíram que ele mantinha a capacidade intelectual e tinha consciência dos próprios atos.
A defesa apresentou especialistas que sustentaram a existência de alterações cerebrais capazes de interferir no comportamento e na tomada de decisões. O júri rejeitou a tese de que um eventual dano cerebral pudesse afastar ou reduzir a responsabilidade penal do acusado e o considerou culpado pelos quatro assassinatos.
Bea evita apresentar um diagnóstico próprio sobre Patrick e afirma que sua função é registrar as conclusões dos especialistas e os elementos considerados pela Justiça.
“Eu sou jornalista. Dedico-me a contar histórias, a recolher os testemunhos dos especialistas, os testemunhos das pessoas e as experiências alheias. Não sou comentarista”, afirmou.
Antes da chacina, Patrick já havia protagonizado outro episódio de violência. Em 2013, aos 16 anos, ele esfaqueou um professor dentro de uma escola em Altamira, no Pará. Durante o julgamento na Espanha, mencionou o caso ao falar sobre sensações que dizia experimentar antes de agir violentamente.
O antecedente levou familiares a questionarem o que poderia ter acontecido se a trajetória de Patrick tivesse sido interrompida antes de sua viagem para a Espanha. Para Bea, essa é uma pergunta que pertence ao campo das hipóteses e não pode ser respondida pelo jornalismo como se fosse um fato comprovado.
A pena e os próximos desdobramentos
Patrick foi condenado inicialmente em 2018. Após recursos, o Tribunal Supremo da Espanha estabeleceu, em 2020, três penas de prisão permanente revisável e uma pena de 25 anos.
As penas de prisão permanente revisável estão relacionadas às mortes de Marcos e das duas crianças. A punição de 25 anos corresponde ao assassinato de Janaína.
A prisão permanente revisável é a pena mais severa prevista na legislação espanhola, mas não impede uma futura análise da situação do condenado depois do cumprimento de um período mínimo e do atendimento a outras exigências legais.
No caso de Patrick, análises jurídicas sobre a execução da sentença indicam que uma eventual revisão dependeria do cumprimento de pelo menos 30 anos de prisão, além da observância dos demais requisitos previstos na legislação.
A regra foi criada na Espanha em 2015, pouco antes dos assassinatos de Pioz. Por ser uma modalidade relativamente recente, Bea afirma que ainda não é possível saber exatamente como ela será aplicada ao caso.
“Não sabemos como vai funcionar, não sabemos o que acontecerá no caso de Patrick”, declarou.
Uma eventual revisão da pena não representaria libertação automática. Quando o prazo chegar, o tribunal deverá avaliar se existem condições para uma possível progressão.
A jornalista também não entrevistou Patrick diretamente para o livro. Ela acompanhou o julgamento e analisou as declarações prestadas por ele durante a investigação e diante da Justiça.
“No início, isso me inquietava, o fato de não ter entrevistado Patrick. Mas, depois, não me arrependi de não tê-lo entrevistado”, afirmou.
Na avaliação de Bea, o material reunido durante a investigação e o julgamento já apresentava a versão de Patrick e permitia reconstruir sua participação nos fatos. Por isso, uma entrevista exclusiva não seria indispensável para a obra.
A memória das vítimas
Ao escrever sobre a chacina, Bea afirma que tentou evitar que Patrick se tornasse o centro absoluto da narrativa. O livro é dedicado a Marcos, Janaína, Maria Carolina e David.
A jornalista teve acesso a fotografias e a outros materiais sensíveis relacionados à investigação, mas decidiu não publicar conteúdos que pudessem ampliar o sofrimento dos familiares.
“Eles já carregam dor suficiente para que eu tenha que causar uma dor extra”, afirmou.
Um dos momentos que mais permaneceram na memória da jornalista ocorreu durante o julgamento. Walfran Campos, irmão de Marcos e tio de Patrick, buscava uma explicação para o crime e repetia uma pergunta:
“Quero que ele me diga por quê.”
A Justiça conseguiu estabelecer quem matou, de que forma os crimes ocorreram e qual seria a punição aplicada ao responsável. Explicar por que Patrick decidiu matar quatro integrantes da própria família, no entanto, era uma questão diferente.
Para Bea, essa pergunta mostra o limite de qualquer reconstrução jornalística. É possível apresentar documentos, depoimentos e conclusões judiciais, mas não necessariamente encontrar uma resposta definitiva para a motivação de uma tragédia.
Um caso ainda lembrado na Espanha
A publicação do livro não encerrou o acompanhamento de Bea. Ela continuou observando os desdobramentos do processo e voltou a tratar da chacina em outras produções jornalísticas.
Segundo a autora, Pioz continua presente na memória da sociedade espanhola. Mesmo dez anos depois, muitas pessoas reconhecem imediatamente o caso quando ouvem o nome do município.
“É um caso que está presente na sociedade espanhola, que não é esquecido e que é considerado um dos crimes mais cruéis da nossa história criminal”, disse.
A cobertura também teve impacto na trajetória pessoal da jornalista, que afirma não ter se envolvido com nenhum outro caso da mesma maneira.
“A implicação deste caso na minha vida, pela forma como o tratei e pela maneira como me envolvi, ultrapassa fronteiras que nenhum outro caso alcançou.”
da Redação com Jornal da Paraíba