
A rotina de Gabriel Esdras, de apenas um ano, mudou a realidade de uma família de Bayeux, na Grande João Pessoa. O bebê, que nasceu com múltiplas malformações, passou a ser conhecido nas redes sociais depois que os pais retomaram as publicações em um perfil que estava sem atualizações havia mais de um ano.
Em menos de um mês, os vídeos do dia a dia da criança ultrapassaram 142 mil seguidores. As imagens mostram momentos simples da convivência familiar, como as brincadeiras de Gabriel com os irmãos, os períodos de alimentação e as horas em que ele assiste a desenhos.
A mãe do menino, Rita de Cássia, de 30 anos, é dona de casa e acompanha Gabriel em tempo integral. Segundo ela, o filho apresenta alterações no sistema nervoso central, malformação craniofacial, turricefalia (condição que modifica o formato do crânio) e dismorfias nas mãos e nos pés.
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O bebê também passou por avaliação com uma médica geneticista, que solicitou uma investigação para verificar a possibilidade de cromossomopatia. Conforme o diagnóstico registrado no acompanhamento médico, Gabriel apresenta atraso no neurodesenvolvimento e precisa ser acompanhado por uma equipe multidisciplinar, além de receber estímulos voltados ao desenvolvimento global.
A cromossomopatia é uma alteração genética que atinge os cromossomos, estruturas responsáveis por armazenar o material genético do organismo. Dependendo do tipo e da intensidade da alteração, ela pode afetar o desenvolvimento ainda durante a gestação e provocar malformações em diferentes partes do corpo.
Apesar das condições de saúde, Rita afirma que Gabriel leva uma vida tranquila e participa das atividades da família.
“Gabriel acorda por volta das 9h e a gente já oferece a alimentação dele. Depois dessa etapa, ele sempre fica no sofá, bem comportado, assistindo desenho. Sempre fica interagindo, brinca muito com os irmãos. A rotina de Gabriel é muito tranquila. Eu costumo dizer que, apesar da má formação, Gabriel é uma criança muito tranquila que não me dá trabalho em nada. São dias normais, como toda criança”, conta.
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Convivência com os irmãos
Gabriel é o quarto filho de Rita e Michel Augusto, de 34 anos. O casal também tem um adolescente de 14 anos, uma criança de seis anos diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outro menino, de quatro anos.
De acordo com a mãe, o caçula conseguiu se adaptar rapidamente à dinâmica da casa. Mesmo com as particularidades do desenvolvimento, ele convive de forma tranquila com os irmãos e não costuma reagir com agressividade ou incômodo diante das mudanças na rotina.
“É incrível que ele se adapta às rotinas da gente muito fácil. Nada para ele é estranho, ele não reage com agressividade ou com incômodo. A gente tenta se adaptar ao mundo deles aqui dentro de casa”, explica Rita.
Diagnóstico foi descoberto durante exame na gravidez
A gestação de Gabriel não havia sido planejada. Rita conta que só descobriu as malformações durante o exame morfológico, realizado quando ela estava na 22ª semana de gravidez.
Segundo ela, a intenção inicial era apenas descobrir o sexo do bebê. Durante o exame, no entanto, o silêncio e a preocupação demonstrados pelo médico chamaram sua atenção antes que ele explicasse a situação.
“Quando eu fui fazer a morfológica, estava com 22 semanas. Eu fui, na verdade, para descobrir se era um menino ou uma menina. Quando eu cheguei na sala, o doutor ficou calado e eu não entendi a preocupação dele. Foi quando ele relatou que meu filho teria malformação. Naquele exato momento meu mundo caiu”, lembra.
A partir do diagnóstico, a família precisou reorganizar a vida. Rita deixou o trabalho como vendedora para se dedicar aos cuidados do filho, enquanto a rotina doméstica passou a ser planejada levando em conta as necessidades de Gabriel.
“Tudo mudou nas nossas vidas depois do diagnóstico. Eu abri mão do meu trabalho para cuidar dele. Foi uma gravidez que eu não esperava e hoje a gente não tem a mesma rotina”, relata.
Além das mudanças práticas, a família também passou a lidar com olhares e comentários preconceituosos. Rita afirma que, em algumas situações, pensa duas vezes antes de sair de casa por causa da forma como as pessoas podem tratar o filho.
“A gente pensa duas vezes quando vai sair, por causa dos olhares das pessoas e de perguntas absurdas. Hoje ele é novinho, mas a gente pensa muito no futuro, questão de bullying”, explica.
Acidente reduziu capacidade de trabalho do pai
A família também enfrenta dificuldades financeiras. Michel Augusto trabalhava como pedreiro, mas sofreu um acidente em 2016 e fraturou o fêmur. Depois do trauma, desenvolveu osteomielite crônica em uma das pernas e passou a conviver com dores constantes.
Por causa do problema de saúde, ele não consegue manter uma rotina regular de trabalho e realiza apenas alguns serviços esporádicos, quando as condições físicas permitem. Atualmente, a principal fonte de renda da casa é o Benefício de Prestação Continuada (BPC) recebido pelo filho de seis anos, que tem diagnóstico de autismo.
Foi nesse contexto de dificuldades que os vídeos de Gabriel começaram a alcançar um público maior. Rita conta que a família decidiu gravar uma brincadeira de forma espontânea, sem imaginar que o conteúdo teria grande repercussão.
“A gente tinha um Instagram que não mexíamos há mais de um ano. Um dia meu esposo chegou do trabalho e resolvemos gravar. Ficou tão engraçadinho. Então batemos 100 mil seguidores e agora a gente não sabe o que fazer (risos). Nós estávamos passando tempos difíceis, a gente precisou pedir dinheiro emprestado para comprar leite para o nosso filho e, três dias depois, uma brincadeira viralizou”, diz.
Seguidores oferecem ajuda e compartilham experiências
Com o crescimento do perfil, pessoas que acompanham a família passaram a entrar em contato para oferecer apoio. Segundo Rita, os pais não começaram uma campanha para pedir dinheiro ou doações, mas receberam mensagens de seguidores dispostos a ajudar.
Além de auxílio financeiro, algumas pessoas enviaram dicas, orientações e itens destinados às crianças. Para Rita, a repercussão trouxe uma possibilidade de melhorar as condições da família em um momento de necessidade.
“Até hoje a gente não pede ajuda. As pessoas que estão vindo oferecer. A gente espera que saia algo bom disso, porque a gente precisa. O agir de Deus na nossa vida foi rápido”, comenta.
A rede social também se tornou um espaço de acolhimento. Mães de crianças com diagnósticos semelhantes passaram a compartilhar experiências e a orientar Rita sobre tratamentos, cuidados e formas de lidar com os desafios do desenvolvimento dos filhos.
Segundo ela, muitas dessas mulheres também elogiaram a decisão de mostrar Gabriel nas redes sociais, sem esconder suas características ou limitar a imagem do menino ao diagnóstico médico.
“Tantas pessoas já vieram nos ensinar. Muitas mães vieram dar conselhos, dar parabéns por não esconder meu filho. Ele é benção mesmo”, finaliza.
da Redação