
Jurista e eterna aprendiz, em jornada de autodescoberta, refinamento e amadurecimento.
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No estado da Paraíba, a Barra de Camaratuba faz divisa com a Baía da Traição. Um belo rio separa o distrito de Mataraca do município, tradicionalmente habitado por povos indígenas.
Meu tio surfista tem uma casa por lá. Mora em Manaus, mas todo ano retorna a esse refúgio – um abrigo silencioso, distante do caos e da pressa das cidades grandes.
O mar é aberto, forte, cheio de ondas – perfeito para o surfe. Eu, que já tentei me banhar nessas águas duas vezes, fui arrastada pelas correntes e aprendi o respeito que o mar exige. Não me atrevo mais. Prefiro a calma do rio, onde a corrente é mansa e o sol, no fim da tarde, se despede tingindo o céu de um tom alaranjado.
Certa vez, o tio surfista nos levou até a Lagoa Encantada, na Baía da Traição. Confesso que não sei de onde vem esse nome, mas as águas cristalinas e a vegetação que a abraça justificam o encanto. No meio do mato, entre algumas ocas e indígenas vendendo água de coco, senti uma paz antiga. Era como se o tempo tivesse parado ali, e as vozes de quem já viveu naquele lugar ainda sussurrassem entre as folhas.
Foi numa terça-feira de carnaval, 12 de fevereiro de 2013, que voltávamos da Lagoa Encantada. Às margens do rio, um corpo coberto por um pano rosa repousava imóvel. Era o corpo de um indiozinho potiguar. O dia, antes tão claro, de repente se fez sombrio.
O menino sofria de epilepsia e outros males. A mãe, sem opção, o deixara trancado em casa enquanto ia comprar os remédios. Mas o pequeno, afoito pela liberdade, conseguiu escapar. Pulou no rio e se afogou. Demoraram um dia para encontrá-lo.
Um indiozinho virou estrela e lá do céu ilumina as matas, as aldeias potiguaras, os rios que revelam e também levam a vida.
A mãe, inconsolável, mergulhou na dor que não tem nome. Perder seu curumim, imagino, é a mais cruel das perdas. Ficamos todos tomados por uma melancolia silenciosa. O carnaval parecia suspenso no ar, sem sentido. “Todos iremos um dia”, murmurávamos uns aos outros, “só não sabemos quando”.
Do outro lado do rio, entretanto, a vida seguia. Uma banda tocava músicas carnavalescas, pessoas dançavam, cantavam, bebiam, riam – e deixavam o lixo espalhado pelas areias. A indiferença feria. A morte e a festa coexistiam como dois mundos que se ignoram. Meu tio ficou estarrecido. Todos ficamos.
A propósito, minha avó faleceu quando o tio surfista tinha apenas dez anos. A ausência dela foi um mar difícil de atravessar, mais que uma onda perigosa. Ele cresceu aprendendo a lidar com o luto cedo demais. Nunca é fácil, mas o tempo ensina – ou pelo menos amacia a dor.
Foi com ele que aprendi uma expressão que carrego comigo: “Viva, aprenda e cresça”. E é o que tento fazer – entre os desafios, as memórias e a perseverança.
A mãe que perde o filho. O filho que perde a mãe. O luto não avisa, apenas atravessa. O mar, com suas águas largas, devolve a paz ao meu tio, cura-o; o rio, com suas correntezas, leva o indiozinho. É assim que a vida se revela: um fluxo de partidas e permanências, porém, sempre nos ensinando a continuar e seguir.
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