Esquema criminoso na Polícia Civil da Paraíba ganha repercussão nacional em reportagem do Fantástico

Uma reportagem exibida nesse domingo (7) pelo programa Fantástico, da TV Globo, trouxe à tona detalhes e gravações inéditas que sacudiram os bastidores da segurança pública da Paraíba. O material jornalístico revelou os bastidores da Operação Perfidus, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) e pela Polícia Civil, evidenciando como uma estrutura criminosa operava dentro da própria instituição para negociar entorpecentes com facções, desviar carregamentos de delegacias e blindar assaltantes de banco. O esquema resultou na prisão do delegado Braz Morroni e dos investigadores Eduardo Jorge, o “Mão Branca”, e Everton Aires, o “Bomba”.

As interceptações telefônicas e ambientais chocaram pela frieza com que a atividade ilícita era tratada por quem deveria combatê-la. Em um dos áudios mais emblemáticos, o investigador Everton Aires, o “Bomba”, resumiu a lógica mercantil do grupo: “É jogo, meu filho, é jogo. Isso é negócio, isso não é pessoal, é negócio”. Em outro momento da gravação, ele traçou um paralelo direto com o mercado formal para explicar a rotina da quadrilha, afirmando que atuar com o tráfico “é o mesmo que você estar vendendo qualquer outra coisa. Só que, em vez de você estar vendendo relógio, você está vendendo droga”.

O enriquecimento ilícito do grupo também ficou evidente nas quebras de sigilo. A investigação apontou que, nos últimos cinco anos, “Bomba” movimentou mais de R$ 4 milhões em suas contas, quantia totalmente incompatível com seu salário de aproximadamente R$ 8.500. Nos áudios, o próprio policial ironizava os ganhos estatais e detalhava suas fontes de renda: “Eu trazer tanto hormônio como suplemento desde 2007. Os ‘anabols’ deixam para mim mais do que o meu salário do Estado. A polícia paga uma merreca”. Em outra gravação, ele foi ainda mais direto sobre a necessidade de vender a cocaína e o crack desviados: “O cara que mais vende aqui sou eu. Se for para me sustentar só com o salário da polícia, não dá, não”.

As revelações expuseram uma grave contradição com a postura pública adotada pelo investigador, que em uma participação recente em um podcast declarou: “A gente tem que agir dentro da legalidade porque a gente não é milícia”. No mesmo programa, ele chegou a vangloriar-se do controle que a polícia tinha sobre a criminalidade local: “A gente conhece os vagabundos, a mãe dos vagabundos, o irmão do vagabundo, a avó do vagabundo, onde ele morava, onde ele mora, conhece tudo”. Porém, segundo o Ministério Público, esse conhecimento servia para fins comerciais e para facilitar o diálogo com o Comando Vermelho.

A rede de proteção também se estendia ao vazamento de operações para assaltantes envolvidos no “Novo Cangaço”, como José Alexandrino Júnior Lira, o “Júnior Lira”. Em uma das escutas, o próprio criminoso celebrava o respaldo que recebia dos policiais civis para escoar drogas e expandir o mercado para o Rio Grande do Norte: “O fato de contar com o apoio de um policial para vender entorpecentes” foi o que lhe permitiu receber ofertas para ampliar as vendas “até Mossoró”.

Diante do forte impacto da reportagem, o procurador-geral de Justiça da Paraíba manifestou-se de forma contundente sobre o desvio de conduta dos servidores públicos. “O fato de serem agentes do Estado dá àquelas pessoas um poder de quem está ali, ciente, acreditando realmente que está blindado. É algo muito grave e que precisa ser combatido com toda força”, asseverou o chefe do Ministério Público.

Após a exibição, os advogados de defesa dos envolvidos se manifestaram sobre as acusações e as prisões. A defesa de Everton Aires sustentou que “o devido processo legal se instaurou” e garantiu que o policial “não aceita as acusações”. Já o advogado do investigador Eduardo Jorge argumentou que “não é crível que policiais possam estar negociando drogas abertamente” e sugeriu que o caso pode se tratar de um “processo de assassinato de reputação”.

Por sua vez, a representação jurídica do delegado Braz Morroni afirmou categoricamente que “não há nada que exponha a participação consciente do delegado nos fatos investigados”. Por fim, a defesa do suspeito Júnior Lira também rechaçou as acusações divulgadas, alegando que sua “inocência será demonstrada” e que o cliente está sendo “alvo de uma perseguição policial”.

da Redação

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