
A formação do fenômeno climático El Niño em 2026 promete intensificar a estiagem e elevar os termômetros na Paraíba, com efeitos mais severos projetados para os territórios do Sertão e do Cariri. Avaliações de especialistas indicam que o evento atual possui potencial para figurar entre os mais rigorosos da história recente, ameaçando o volume armazenado nos açudes, a qualidade do ar e aumentando a pressão sobre as redes de abastecimento hídrico e elétrico.
Meteorologistas explicam que o El Niño decorre do aquecimento anômalo das águas na faixa equatorial do Oceano Pacífico em função do enfraquecimento dos ventos alísios.
“Na costa do Peru, um aquecimento muito significativo desde o final de janeiro configurou o chamado El Niño Costeiro. Já na faixa central do oceano, que é a região com maior influência no clima do Brasil, o aquecimento se consolidou em meados de abril”, explicou a meteorologista Morgana Almeida, do Instituto Nacional do Semiárido (Insa).
Projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) apontam elevada probabilidade de a temperatura oceânica superar em mais de 2 °C a média histórica, enquadrando o fenômeno na categoria “Forte” ou “Muito Forte”.
“O coração da questão é o desenvolvimento de um El Niño em um cenário de mudanças climáticas. Quando um El Niño dessa intensidade se soma ao aquecimento global, o risco de eventos climáticos extremos se multiplica: ondas de calor mais intensas, secas severas no Norte e Nordeste e tempestades volumosas na Região Sul do Brasil”, destacou Morgana.
Entre os meses de agosto e outubro, período que coincide com a estiagem natural do estado, o El Niño deve provocar sequências prolongadas de dias quentes e eventuais ondas de calor.
“Nos meses de agosto, setembro e outubro de 2026, praticamente não chove, pois climatologicamente já é o início do período de estiagem e de maiores temperaturas na região. O El Niño poderá potencializar esses aspectos, contribuindo para a ocorrência de dias consecutivos com temperaturas mais altas e possíveis episódios de ondas de calor”, previu a pesquisadora.
A elevação das temperaturas acarretará desdobramentos diretos no meio ambiente e na infraestrutura local.
“Os efeitos dessa elevação geram um efeito em cascata. A umidade relativa do ar diminui drasticamente, o que afeta a qualidade do ar, e, consequentemente, a saúde humana e animal. Além disso, há o aumento da evaporação, fazendo com que os reservatórios percam mais água para a atmosfera. Esse aumento térmico gera pressão sobre infraestruturas importantes, como o aumento na demanda por água e por energia elétrica”, destacou.
O impacto também poderá se estender para o início do próximo ciclo de chuvas no semiárido paraibano.
“Posteriormente, caso o fenômeno persista com intensidade forte ou muito forte, o impacto será sentido na qualidade da próxima estação chuvosa, que também se inicia no Sertão. O trimestre de dezembro de 2026 a fevereiro de 2027 tem alta probabilidade de estar sob a influência de um El Niño forte”, disse.
Os reflexos da alteração climática vão variar conforme a geografia estadual. De acordo com a pesquisadora, “no Sertão e Cariri, o fenômeno intensifica as temperaturas elevadas e a baixa umidade no segundo semestre”. Já para a faixa leste e agrestina do estado, as precipitações sofrerão alterações quantitativas.
“No Litoral, Brejo e Agreste, a principal estação chuvosa ocorre no decorrer do outono e inverno. Sob a influência do El Niño, a tendência geral é de redução no volume total acumulado de chuvas. No entanto, isso não impede a ocorrência de eventos extremos e pontuais de chuva forte, como os registrados recentemente no final de abril/início de maio”, finalizou Morgana Almeida.
da Redação
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