ColunistasLeticia Albuquerque

Eleições: intolerâncias e ataques pessoais

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Nara não esquece. Não esquece o dia infeliz em que sua prima tentou convencê-la a votar em um tal candidato. Foi durante o pleito eleitoral de 2018. O Brasil estava polarizado, e as famílias também: direita versus esquerda.

Deliberadamente, ouviu de uma delas, a prima Rosa:

— Bolsonaro vai dar emprego para comunista.

A afirmação provocou duas indagações, sobre as quais Nara ponderou antes de responder.

Primeiramente, como um candidato promete que vai dar emprego ao povo se não diz como isso será feito? Se quer apresenta propostas consistentes, precisa explicar de onde virão os empregos e quais medidas pretende adotar. Vai ver o candidato nem disse aquilo, e a proposição surgiu da fantástica mente da prima Rosa.

A outra indagação dizia respeito ao uso da palavra comunista. Rosa chamava de comunistas todas as pessoas que discordavam de suas opiniões, embora nem soubesse exatamente o que o termo significa. Se alguém lhe pedisse para explicar o que é comunismo, provavelmente não conseguiria.

Nara poderia falar sobre Karl Marx e Friedrich Engels. Poderia explicar que comunista não é uma palavra para designar alguém de quem não gostamos. Poderia falar sobre sistemas econômicos, propriedade dos meios de produção, classes sociais, entre outros. Poderia até abrir a Constituição Federal e lembrar que o Brasil tem entre seus fundamentos os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e que está longe de ser um país comunista.

No entanto, já convicta de suas opiniões e mesmo munida de tantos argumentos, Nara preferiu responder à provocação:

— É muito fácil falar em emprego quando seus pais pagam o seu salário!

Para contextualizar, Rosa, por meritocracia (contém ironia), trabalha em uma empresa de médio porte fundada pelos pais dela e, por esse motivo, sentia-se muito rica e superior aos demais.

A conversa seguiu:

— Deixa! Eu só converso sobre política com quem paga impostos – disse Rosa, fugindo da conversa.

Nara ainda processava a frase quando Magda, babona de Rosa, resolveu entrar na arena.

— E eu só converso sobre política com quem tem carteira assinada – disse Magda, outra prima que também bebia do sabor amargo da ignorância.

Pronto.

Estarrecida com o andamento da conversa, Nara ficou perplexa. Além de não compreender as teorias sociais e políticas, a prima Rosa também parecia desconhecer noções básicas de política tributária. E as duas primas confundiam cidadania e democracia com a própria condição econômica e profissional.

Uma acreditava que pagar impostos era uma espécie de certificado de cidadania. A outra parecia imaginar que a carteira de trabalho era um título eleitoral. As duas não entediam que cidadania não se compra com contracheque e que democracia não exige comprovante de renda para conceder o direito de opinião.

Nara pensou novamente em explicar.

Pensou em falar sobre cidadania.

Sobre direitos.

Sobre deveres.

Sobre democracia.

Sobre o fato de que uma sociedade não é formada apenas por quem tem emprego formal, nem apenas por quem paga determinado tipo de tributo. Pensou em explicar que a vida pública pertence a todos… O voto é direito de TODOS!

Desistiu de tentar explicar, seria um desperdício de tempo!

O buraco era mais embaixo.

Não tinha jeito! Cada uma tinha suas próprias convicções e certezas. Mas, em vez de debaterem com clareza e parcimônia, preferiram partir para os ataques pessoais.

Deixemos para o tempo… o fabuloso tempo sempre mostra quem tem razão!

A família ainda segue instável com agressões e ressentimentos por todos os lados. Nara deseja que, um dia, a paz volte a reinar e que a hipocrisia e falsidade caiam por terra, quando ninguém mais precisar destruir o outro para provar que estava certo.

* Os textos e vídeos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Paraíba Dia a Dia.

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