CEO do Ilha Tech revela bastidores da criação do hub

Em almoço promovido pelo Clube de Permuta João Pessoa, empresário paraibano compartilhou sua trajetória, falou sobre a transformação do mercado de comunicação, a criação do Ilha Tech e os caminhos que encontrou para manter os negócios à frente das mudanças

A trajetória profissional de Ruy Dantas é marcada menos por uma linha reta do que por rupturas. Publicitário e empreendedor, o presidente do Sin Group e fundador e CEO do Ilha Tech construiu sua carreira em meio a transformações profundas no mercado de comunicação e fez das crises que atravessou matéria-prima para reinventar seus negócios.

Foi sobre essa trajetória que Ruy falou durante um almoço exclusivo promovido pelo Clube de Permuta João Pessoa, na última quinta-feira (6/8). O encontro reuniu cerca de 60 empresários, empreendedores, líderes e gestores, em uma programação voltada à troca de experiências e à geração de negócios.

Segundo Filipe Piomonte, um dos responsáveis pela franquia do Clube de Permuta em João Pessoa, o convite a Ruy Dantas ocorreu pela relevância de sua atuação e pela experiência acumulada à frente de negócios que acompanham de perto as transformações do mercado.

Ao longo da apresentação, Ruy percorreu diferentes momentos de sua carreira para explicar como chegou ao atual modelo do Sin Group, um ecossistema formado por empresas especializadas em comunicação, marketing, tecnologia, inteligência e inovação.

Uma escolha que começou no jornalismo
Antes de construir um grupo empresarial, Dantas passou pelo jornalismo. Ele conta que a profissão já não lhe atraía, seja pela polarização que se intensificou no Brasil a partir de 2014, seja pela queda de qualidade que, em sua avaliação, acompanhou a chegada de criadores de conteúdo pouco qualificados. Sentia-se cada vez mais distante da profissão.

Por outro lado, via-se cada vez mais apaixonado pela publicidade e pela inovação.

“50% do que eu aprendi na vida, eu não aprendi na universidade, eu aprendi no colo do meu pai”, disse, ao atribuir ao pai, agropecuarista, parte do que aprendeu sobre liderança e tomada de decisão.

Na publicidade, encontrou uma nova forma de exercer a comunicação: transformar problemas complexos em mensagens capazes de produzir uma resposta em poucos segundos. Mas o mercado que havia escolhido para construir sua carreira também seria o primeiro grande território de ruptura.

Quando o modelo tradicional deixou de funcionar
Durante anos, o negócio publicitário esteve fortemente associado à televisão e a um modelo baseado em comissões de mídia. A chegada das plataformas digitais alterou profundamente essa lógica. Facebook, Google e outras plataformas passaram a deslocar investimentos antes concentrados na mídia tradicional, e o impacto não foi gradual.

“Eu tive que me reinventar e, ao me reinventar, eu me reinventei com os erros e acertos dos modelos de negócios que acabaram”, resumiu.

A experiência fez surgir um princípio que permanece no Sin Group: não depender de uma única lógica de mercado. Ruy buscou respostas no Sebrae, na Fundação Dom Cabral, em universidades e com especialistas do ambiente digital, em um processo de estudo e experimentação que incluiu um período na França.

De uma agência para um ecossistema
Se o mercado havia deixado de concentrar investimentos em um único formato, a resposta não poderia estar em uma única empresa fazendo tudo. Foi assim que a estrutura do grupo se transformou.

A Sin Comunicação passou a concentrar o trabalho em comunicação e branding. A IMA Gestão de Imagem assumiu a frente de relações públicas, assessoria de imprensa e gestão de crises. A Keek Inteligência Analítica nasceu para transformar dados em inteligência e estratégia, com soluções tecnológicas voltadas à análise e ao monitoramento, e o Ilha Tech consolidou-se como o hub de inovação do grupo.

A diversificação também alterou a economia do negócio. A criação de produtos próprios permitiu ampliar margens e criar novas fontes de receita dentro do mesmo ecossistema, reduzindo a dependência do modelo tradicional de comissionamento das agências.

O nascimento do Ilha Tech
Durante a pandemia, o Sin Group enfrentou uma forte redução de receitas e precisou reorganizar sua estrutura. Foi nesse cenário que Ruy passou a aplicar à própria empresa uma metodologia que já utilizava para ajudar outros negócios, e desse processo surgiu o hub de inovação Ilha Tech.

O primeiro passo foi definir o que o projeto não seria: um coworking. A escolha refletia a intenção de fugir de um modelo que, naquele momento, enfrentava dificuldades diante da expansão do trabalho remoto.

Da metodologia própria construída a partir daí, uma pergunta se tornou recorrente antes do início de qualquer projeto: “O que esse projeto não será?”

Outra referência vem de Steve Jobs. Segundo Ruy, quando lançou o primeiro iPhone, Jobs já sabia como construir a décima versão do aparelho, mas escolheu lançar um produto simples e aprimorá-lo ano após ano. Para Dantas, essa é a mesma lógica de evolução utilizada há décadas por marcas como Coca-Cola e McDonald’s, que atualizam produtos e processos de forma contínua, em vez de buscar uma versão definitiva de uma só vez.

A terceira inspiração está em Amyr Klink, no conceito de um barco projetado para se desvirar sozinho, metáfora que se tornou parte da lógica do Ilha Tech.

Um novo jeito de operar
Ruy resume o funcionamento atual do Ilha Tech dizendo que sua agenda está concentrada na orquestração de projetos, e não na operação direta de cada entrega. Trata-se de uma mudança de posição, de executor para articulador.

Projetos apresentados pelo Ilha Tech chamaram a atenção do Google e do YouTube, abrindo portas para novas conexões e contribuindo para a expansão do modelo para Brasília, onde a proposta passou a ser reproduzida com a mesma lógica de projetos orquestrados a partir de demandas concretas.

Impacto como critério para entrar no jogo
“Se não gerar impacto, eu tenho mil concorrentes melhores do que eu”, destacou Dantas, para quem competência, sozinha, já não basta para diferenciar uma empresa em um mercado competitivo.

A partir dessa visão, o Ilha Tech passou a priorizar projetos capazes de produzir impacto social, inclusive em parceria com o poder público, aproximando inovação, empreendedorismo e gestão pública.

A próxima ruptura pode ser a inteligência artificial
Ruy Dantas acredita que a inteligência artificial representa uma nova ruptura de proporções ainda difíceis de dimensionar, uma das mudanças mais importantes desde o surgimento do iPhone, na avaliação dele.

No Sin Group, a resposta começou com a criação de uma Academia de IA, inicialmente estruturada como um laboratório interno sob a liderança do professor Antônio Carlos Demingos, com foco em necessidades concretas do dia a dia dos colaboradores.

“Na hora que a gente resolveu aquela dor, aquela menina que era contra passou a ser nossa aliada”, contou Dantas, ao relatar o caso de uma funcionária que passou a apoiar a adoção da tecnologia depois de ter uma necessidade concreta atendida por uma solução de IA desenvolvida internamente.

Segundo Ruy, o grupo já tem 12 projetos de IA em fase de orquestração, dos quais cinco estão prontos. Parte dos profissionais envolvidos no desenvolvimento dessas soluções passou a ser sócia dos próprios produtos criados.

Uma carreira construída na reinvenção
Ao olhar para trás, Ruy Dantas reconhece que o modelo atual do Sin Group é consequência direta das rupturas que viveu. A diversificação, a criação de empresas especializadas, o Ilha Tech e a atuação orientada por impacto não surgiram de um plano desenhado desde o início. Foram respostas a problemas concretos.

O empresário disse não se considerar um “case de sucesso” no sentido tradicional, nem recomendar a outros empreendedores que reproduzam sua estrutura de múltiplas empresas. O modelo, segundo ele, carrega marcas de seus próprios traumas empresariais, especialmente o medo de voltar a depender de uma única fonte de receita.

Assessoria

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