
Há um velho ditado popular que diz: “Não há mal que não traga um bem”. O resultado do primeiro turno da eleição presidencial produziu exatamente esse efeito: obrigou a campanha de Lula a rever sua estratégia e, ao mesmo tempo, permitiu que o eleitor conhecesse melhor o que poderá estar por trás da candidatura que terminou à frente nas urnas. A diferença foi pequena. Apenas 1,8 ponto percentual separou os dois candidatos. Longe de representar uma vitória definitiva, o resultado abriu uma nova disputa. O segundo turno é outra eleição.
Lula percebeu que não basta repetir a estratégia utilizada no primeiro turno. É preciso ocupar as redes sociais, dialogar diretamente com o eleitor, comparar trajetórias políticas e biografias e, sobretudo, mostrar as consequências das propostas defendidas pela extrema direita.
Há, ainda, um fato novo que não pode ser ignorado: os estudantes voltaram às ruas. Em todo o país, a juventude começa a ocupar o espaço público em defesa das universidades fecerais e da democracia. A história brasileira e mundial já demonstrou inúmeras vezes a força mobilizadora dos estudantes. Quando a juventude se movimenta, a sociedade costuma perceber que algo importante está em jogo.
Enquanto isso, o candidato que terminou o primeiro turno na frente parece ter cometido um erro político elementar: comporta-se como se já tivesse vencido a eleição. Antes mesmo de chegar ao Palácio do Planalto, já são divulgados nomes para ocupar ministérios e outros cargos estratégicos. Eduardo Bolsonaro aparece como nome para o Itamaraty. Pablo Marçal chegou a ser citado para o Supremo Tribunal Federal e afirmou que, caso chegasse à Corte, “tocaria o terror”.
O problema se torna ainda mais grave quando se fala em uma nova Constituição. A Carta de 1988 não surgiu por acaso. Foi resultado de uma longa luta pela redemocratização do país depois de duas décadas de ditadura. Foi ela que restabeleceu direitos, consolidou garantias individuais e coletivas e estabeleceu as bases do Estado Democrático de Direito. Mexer nesse alicerce exige muito mais do que uma promessa de campanha. Exige responsabilidade histórica.
E as propostas anunciadas para a economia e para a área social também precisam ser examinadas com atenção. Rogério Marinho já falou em reforma da Previdência que elevaria para 70 anos a idade necessária para a aposentadoria. Também defendeu mudanças na forma de reajuste dos benefícios e pensões do INSS, bem como do salário minimo. Ao mesmo tempo, o governo de Javier Milei, na Argentina, aparece como referência para integrantes do grupo político que pretende governar o Brasil. O que seria uma tragédia.
O trabalhador também já recebeu um recado claro. Ao se posicionar contra mudanças na jornada de trabalho e defender a redução de direitos como caminho para a geração de empregos, o discurso repete uma velha fórmula: menos direitos para o trabalhador em troca da promessa de mais empregos. Mas desde quando retirar direitos sociais é condição para criar empregos? Essa é uma pergunta que o eleitor precisa fazer antes de depositar seu voto na urna.
O problema é que o candidato parece acreditar que o resultado do primeiro turno já lhe assegurou a Presidência. Por isso, fala, promete, anuncia e antecipa decisões como se a eleição estivesse encerrada. Não está. E talvez esse excesso de confiança possa produzir exatamente o efeito contrário ao pretendido.
A diferença de 1,8 ponto percentual não autoriza ninguém a vestir a faixa presidencial antecipadamente. Uma eleição presidencial não termina quando um candidato vence o primeiro turno. Termina somente depois da decisão soberana do eleitor no segundo. É bom lembrar, inclusive, que o resultado do primeiro turno pode ser profundamente alterado na etapa seguinte. Em 2022, Jair Bolsonaro conseguiu reduzir significativamente a diferença que o separava de Lula depois do primeiro turno. Portanto, comemorar antecipadamente é, no mínimo, imprudente.
Mais preocupante ainda é quando a euforia eleitoral leva um candidato a revelar, antes da hora, aquilo que pretende fazer caso chegue ao poder. É preciso prestar atenção.
Porque não está em jogo apenas quem ocupará a Presidência da República pelos próximos quatro anos. Está em jogo o modelo de Estado que queremos construir, o papel das instituições, os direitos dos trabalhadores, a Previdência, as universidades públicas, a soberania nacional e a própria democracia brasileira. O Brasil não pode entregar suas riquezas estratégicas nem sua soberania como se fossem mercadorias de troca. Tampouco pode aceitar que interesses estrangeiros determinem o destino de um país com as dimensões, os recursos naturais e a importância geopolítica do Brasil.
Os estudantes já estão nas ruas. A sociedade começa a perceber que a disputa não é apenas entre dois nomes. É uma escolha sobre o Brasil que queremos deixar para as próximas gerações. Por isso, é cedo para comemorar. O segundo turno é outra eleição. E, desta vez,
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