
Jornalista, escritor, membro da Academia Paraibana de Letras (APL) e Diretor de Rádio e TV da Rádio Tabajara.
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A preocupação com o fenômeno da adultização da infância não é algo novo. Nas últimas décadas, temos percebido o quanto as crianças vêm sendo expostas a conteúdos, comportamentos e padrões estéticos que pertencem ao universo adulto — seja pela televisão, pela publicidade ou pelas redes sociais. Isso tem levado à adoção de atitudes, vestimentas e valores incompatíveis com a idade infantojuvenil.
O tema voltou a ganhar destaque nos últimos dias em razão da denúncia feita, em vídeo, pelo influenciador digital Felca, envolvendo casos de pedofilia na internet. A questão ganhou grande repercussão, expondo uma realidade já conhecida, mas, lamentavelmente, ignorada por muitos. O episódio provocou reações, inclusive no campo político, e se tornou uma oportunidade para defender propostas de regulamentação da mídia.
O presidente da Câmara Federal, deputado Hugo Motta, decidiu pautar o debate, na qual já foram protocolados mais de 30 projetos, apresentados por parlamentares de diferentes posicionamentos ideológicos. Tornou-se, assim, uma pauta consensual, com algumas restrições levantadas por lideranças políticas da extrema direita, que recorrem ao velho discurso de que a regulação da mídia ameaça a liberdade de imprensa e a livre circulação de ideias. O governo federal, por sua vez, anunciou o envio de uma proposta legal para estabelecer regras que garantam o bom funcionamento da mídia, assegurando a todos o direito à comunicação de forma tranquila e segura. Não se trata de censura, mas da definição de parâmetros claros e responsáveis para seu uso.
No caso específico da adultização do público infantil, essa regulação é imperiosa e urgente. É necessário limitar a exibição de conteúdos inadequados em horários acessíveis às crianças, criar códigos de conduta para a publicidade infantil e responsabilizar as plataformas digitais por algoritmos que promovam conteúdos nocivos.
O processo de adultização da infância compromete o desenvolvimento saudável, estimulando precocemente a sexualização, o consumismo e a perda de referências próprias dessa fase da vida. O impacto é direto sobre a autoestima, a construção da identidade e até mesmo a saúde mental.
É chegada a hora de a sociedade brasileira promover um amplo, imediato e transparente debate sobre o tema, no campo das políticas de comunicação e cultura. É fundamental que a mídia funcione de forma ética, responsável e democrática. Não é mais aceitável a campanha de desinformação que tenta induzir ao entendimento de que a regulação significaria o “fim da liberdade de expressão”. Em várias partes do mundo democrático, a regulação midiática já é uma realidade consolidada.
A infância não pode ser tratada como um nicho de mercado nem como um laboratório para modismos e lucros rápidos. Preservar esse tempo único da vida é investir no futuro de uma sociedade mais equilibrada, saudável e consciente. A regulação da mídia é, portanto, um instrumento indispensável para que nossas crianças tenham o direito de viver plenamente… como crianças — protegidas desses perversos mercados eróticos. Com ela, será possível punir com rigor os delinquentes sociais responsáveis por tais práticas, inibindo a continuidade desse crime.
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