
A chacina que matou uma família paraibana na Espanha completa dez anos nesta segunda-feira (17). O crime aconteceu na cidade de Pioz, na província de Guadalajara, e vitimou Marcos Campos Nogueira, a esposa dele, Janaína Santos Américo, e os dois filhos do casal: Maria Carolina, de 4 anos, e David, de apenas 1 ano.
O autor dos assassinatos foi o sobrinho de Marcos, François Patrick Nogueira Gouveia, que havia recebido abrigo da família. Ele foi condenado pela Justiça espanhola à prisão perpétua. No Brasil, o amigo dele, Marvin Henriques Correia, continua respondendo a um processo por suposta coparticipação, em razão das mensagens trocadas com Patrick durante o período em que os crimes foram cometidos.
A família havia deixado a Paraíba para tentar construir uma vida melhor na Europa. O caso ganhou repercussão internacional pela brutalidade dos assassinatos, pelo intervalo de aproximadamente um mês até a localização dos corpos e pelo conteúdo das conversas mantidas entre Patrick e Marvin.
Família deixou a Paraíba para viver na Espanha
Marcos Campos Nogueira chegou à Espanha em 2013. Antes de levar a mulher e a filha para o país, ele foi sozinho para buscar trabalho e tentar melhorar as condições de vida da família. A intenção era atuar no setor de gastronomia e restauração.
Em 2014, Janaína Santos Américo e a filha mais velha, Maria Carolina, viajaram para se juntar a Marcos. O filho mais novo do casal, David, nasceu na Espanha.
A família se estabeleceu em Pioz, uma pequena cidade que tinha pouco mais de 5 mil habitantes à época. Foi nesse local que Marcos e Janaína alugaram a casa onde acabariam sendo assassinados.

Patrick foi para a Espanha em busca do sonho de ser jogador
Patrick Nogueira chegou à Espanha em março de 2016, aos 19 anos. Ele pretendia tentar uma carreira como jogador de futebol profissional.
Segundo o tio de Patrick, Walfran Nogueira, o jovem viajou sem que toda a família aprovasse a decisão. Antes da partida, Walfran tentou convencê-lo a adiar a mudança e chegou a propor uma viagem planejada para que os dois buscassem oportunidades no futebol.
“Quando o Patrick decidiu realizar o sonho de ser jogador de futebol e abandonar tudo e viajar para a Europa, eu fui na casa dele tentar pedir que ele não viajasse. A minha irmã pediu para eu tentar convencer o Patrick de não ir embora”, contou Walfran.
De acordo com o familiar, Patrick vendeu um carro para custear a viagem e deixou o Brasil sem organizar completamente a mudança.
“Ele vendeu um carro e viajou sem o apoio da família, sem comunicar a família. Eu tentei impedir essa viagem, até sugerindo: ‘Vamos nos organizar, eu vou com você para a Europa para a gente tentar a sorte no futebol e ver se dá certo’. Mas ele não me deu ouvidos”, relembrou.
Apesar das preocupações, Marcos decidiu acolher o sobrinho. Patrick passou a morar com o tio, a tia e os dois primos. A convivência, porém, durou cerca de cinco meses até o assassinato da família.
Convivência teria sido marcada por desentendimentos
Walfran afirmou que Marcos e Patrick tinham uma relação próxima antes da mudança para a Espanha. O tio conhecia o sobrinho havia anos e, segundo ele, os dois mantinham uma convivência amigável.
“Eles viviam muito bem, era uma convivência amigável, bonita, de tios e sobrinhos. O Marcos gostava tanto do Patrick e eles eram tão unidos que trouxe o Patrick para morar na mesma casa. O Marcos disse: ‘Não, você vem morar comigo, eu não vou colocar você em outro lugar’”, relatou.
Ainda segundo Walfran, os conflitos começaram durante o dia a dia da casa. Patrick teria deixado de colaborar com tarefas domésticas, o que provocava reclamações de Janaína e discussões com Marcos.
“Mas com a convivência, com o dia a dia, eles foram tendo e vivendo situações que foram causando desconforto para a família. Principalmente para a Janaína e as duas crianças”, afirmou.
O familiar explicou que, conforme os relatos que recebeu do casal, Patrick preparava refeições, mas não ajudava na limpeza da cozinha, na lavagem dos pratos ou na retirada do lixo.
“Patrick fazia comida, não limpava o fogão, não limpava os pratos, não jogava o lixo, deixava tudo para a mulher de Marcos, a Janaína, fazer. E Janaína contava para o Marcos. E Marcos chegava em casa e ia conversar com ele. E aí eu acho que foi criando um mal-estar por causa dessas besteirinhas, desses detalhes. Foi criando um mal-estar na convivência”, disse Walfran.
Para ele, o desgaste cotidiano pode ter contribuído para a raiva que Patrick passou a nutrir contra os parentes.
Família foi encontrada morta quase um mês depois
Os assassinatos aconteceram em 17 de agosto de 2016. Os corpos só foram encontrados em 18 de setembro, cerca de um mês depois.
As vítimas estavam dentro de sacos plásticos na casa alugada pela família. Os corpos foram esquartejados, e a cena do crime inicialmente levou a Guarda Civil espanhola a considerar a possibilidade de um homicídio ligado a acerto de contas.
Com o avanço da investigação, essa hipótese foi descartada. A polícia encontrou material genético de Patrick no imóvel e passou a tratá-lo como o principal suspeito.
Segundo as investigações, Janaína foi a primeira vítima. Ela teria sido atacada com uma faca na cozinha. Depois, as duas crianças foram mortas em um dos quartos da residência. Marcos estava trabalhando durante os primeiros assassinatos.
Após matar a tia e os primos, Patrick teria esquartejado os corpos e limpado parte da residência. Marcos foi assassinado quando retornou do trabalho.
Em depoimento à Justiça, Patrick confessou os quatro homicídios e afirmou que tudo aconteceu rapidamente.
“Matei os quatro porque matar apenas Marcos me parecia cruel. Não ia deixar uma família sem marido e sem pai. Não sofreram, não gritaram, foi muito rápido”, declarou.
O réu também disse que sentia necessidade de matar e que essa sensação não havia surgido somente naquele momento.
“Três dias antes [do crime], senti a necessidade de matar. Isso acontece muitas vezes, desde os 12 anos. Quando isso acontece, eu bebo muito”, afirmou, segundo trechos do depoimento divulgados à época.
Patrick voltou ao Brasil antes de ser identificado
Durante o período em que os corpos ainda não haviam sido encontrados, Patrick retornou ao Brasil. Naquele momento, ele ainda não era oficialmente apontado como suspeito.
Depois que as investigações avançaram e a polícia passou a relacioná-lo ao crime, Patrick se entregou às autoridades e confessou os assassinatos.
O jovem foi levado à Justiça espanhola e condenado pelas quatro mortes. Inicialmente, recebeu três penas de prisão perpétua e, posteriormente, uma quarta condenação de 25 anos pelo assassinato de Janaína. A legislação espanhola prevê a revisão da prisão permanente revisável depois de determinado período.
Família ficou em choque com o crime
Antes da chacina, Walfran descrevia Patrick como uma pessoa educada, carinhosa e prestativa. Por isso, segundo ele, a notícia dos assassinatos foi ainda mais difícil de compreender para os parentes.
“Patrick sempre foi uma pessoa carinhosa. Ele era uma pessoa educada, uma pessoa amável. Patrick era uma pessoa prestativa. A gente estava sentado dentro da família e alguém falava: ‘Ah, quero beber um copo com água, quero uma Coca-Cola’. Ele se levantava e ia à geladeira pegar, sem ninguém mandar. Ele era uma pessoa que gostava de servir. Era uma educação incrível, uma pessoa supereducada”, relembrou.
Walfran contou que levava o sobrinho para encontros com amigos ligados ao futebol e que Patrick sempre apresentava um comportamento considerado adequado.
“Eu levava Patrick para sair comigo e meus amigos, ex-jogadores de futebol, porque como eu joguei no Botafogo, de João Pessoa, e no Campinense, então eu tinha muitos amigos de futebol. E eu levava ele para o churrasco, para o futebol, para bater um papo. E ele sempre se comportou bem, nunca demonstrou nada. Meus amigos gostavam dele. Meus amigos diziam: ‘O teu sobrinho, como ele é educado, como ele é inteligente’”, afirmou.

Mensagens com amigo são usadas no processo contra Marvin
Enquanto aguardava a chegada de Marcos, depois de matar Janaína e as duas crianças, Patrick conversou por mensagens com Marvin Henriques Correia, que estava em João Pessoa.
Os dois eram amigos próximos. Na época, Patrick chegou a chamar Marvin de “irmão mais novo” e afirmou que os dois eram inseparáveis.
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“É como se fosse um irmão mais novo. Ele é muito bom. Sua mãe era psiquiatra e me ajudou muito. Somos inseparáveis”, disse Patrick sobre Marvin.
A conversa ocorreu entre a tarde de 17 de agosto e a manhã de 18 de agosto de 2016, considerando o horário da Espanha. Durante o diálogo, Patrick relatou detalhes dos assassinatos e informou a ordem em que as vítimas haviam sido mortas.
Quando Marvin perguntou quem havia sido atacado primeiro, Patrick respondeu: “Na mulher, depois a mais velha e depois o moleque de um ano”.
As mensagens também registraram comentários de Patrick sobre o ataque contra Janaína e os filhos. Em determinado momento, ele afirmou: “As crianças ficaram gritando. Massa que os pirralhos nem correm, só ficam ‘travadão’. O pirralho de um ano falava algumas coisas, mas na hora falava nada, não”.
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Segundo a investigação da Polícia Civil da Paraíba, Marvin teria dado orientações ao amigo sobre como agir depois dos assassinatos. Entre as mensagens, ele recomendou que Patrick deixasse a casa durante o dia, para não levantar suspeitas.
“Sai pela frente mesmo, de manhã, como se fosse caminhar ou algo do tipo. Sei lá. De madrugada pode parecer suspeito. Mas eles não vão descobrir nem tão cedo as mortes”, escreveu Marvin.
Em outra mensagem, ele alertou Patrick sobre a necessidade de evitar vestígios:
“Ajeita essas luvas direito. Deixa eu ver aqui o que mais [tem a ser feito]. Tem alguma coisa por aí? Ou alguma coisa que ligue a você?”
Após receber uma resposta negativa, Marvin concluiu:
“Beleza. Então está tranquilo, mas tem que ficar pensando minuciosamente, para não dar merda.”
Durante a conversa, Patrick também relatou que não sentiu o nojo que imaginava sentir ao esquartejar os corpos. Ele disse que chegou a rir no início e, depois, ficou irritado com o esforço necessário para concluir a ação.
O jovem afirmou ainda que precisava contar o que havia feito a alguém, mas temia perder a amizade de Marvin.
“Eu estou feliz que tu está de boa. Eu fiquei com medo de tu dizer ‘boy, acabou’. Eu tenho medo de te perder, mas eu não podia não compartilhar contigo”, escreveu Patrick.
Marvin respondeu com risadas e chamou o amigo de assassino. Em seguida, Patrick afirmou:
“Eu pensei que ia mudar algo na minha vida [matar alguém]. Eu pensei que ia me sentir mais vivo.”
Em outra parte da conversa, os dois disseram que se amavam. Marvin também teria afirmado que não poderia fazer nada e que Patrick era “doente”.

Marvin foi preso e inicialmente absolvido
Marvin tinha 18 anos quando as mensagens foram trocadas. Ele foi preso na Paraíba e investigado pela Polícia Civil por supostamente auxiliar Patrick na execução do crime contra Marcos.
A Polícia Civil concluiu que o amigo teria dado apoio moral e orientações ao autor dos assassinatos. A Polícia Federal, por outro lado, avaliou que a conduta de Marvin poderia ser considerada moralmente reprovável, mas não identificou crime previsto na legislação penal brasileira naquele momento.
Depois do indiciamento, o caso chegou à Justiça estadual. Em 2021, a juíza Aylzia Fabiana Borges Carrilho, do Segundo Tribunal do Júri da Capital, decidiu pela absolvição sumária de Marvin. A decisão considerou que ele não havia participado diretamente do homicídio e que as mensagens não configuravam, naquele entendimento, um crime tipificado no Código Penal.
Justiça reabre processo contra o amigo
O caso voltou a tramitar em 2023, depois que o Ministério Público da Paraíba pediu a revisão da absolvição.
O desembargador João Benedito da Silva, relator do recurso, entendeu que Marvin poderia ter instigado Patrick e oferecido apoio moral para a prática do crime. O entendimento foi acolhido por unanimidade pela Câmara Criminal, que revogou a absolvição sumária e determinou a retomada do processo.
A Justiça recomendou que o andamento tivesse prioridade, levando em conta o tempo transcorrido desde os assassinatos, em 2016.
Em 2024, a defesa de Marvin sofreu nova derrota judicial. Os advogados tentavam reverter uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que havia impedido o encaminhamento do caso ao Supremo Tribunal Federal (STF).
O STJ entendeu que o recurso exigiria uma nova análise de fatos e provas, o que não é permitido ao Supremo nesse tipo de procedimento. Assim, a decisão que barrou a remessa do processo foi mantida, e a ação continuou na Justiça estadual.
Defesa afirma que mensagens não configuram crime
O advogado Sheyner Asfora, que representa Marvin, afirmou que pretende questionar a competência da Justiça Estadual da Paraíba para conduzir o processo. Segundo ele, o caso deveria ser analisado pela Justiça Federal, em razão dos acordos internacionais de cooperação entre Brasil e Espanha utilizados durante a investigação.
A defesa também sustenta que as mensagens não tiveram relação causal com o assassinato de Marcos e que a conversa foi iniciada por Patrick depois que os três primeiros homicídios já haviam acontecido.
“Foi reprovável do ponto de vista moral, do ponto de vista ético, do ponto de vista cristão, mas moralmente reprovável, não reprovável do ponto de vista jurídico-penal. Essa esfera não tem qualquer responsabilidade. Esse é um ponto importante e que a defesa sustenta em várias oportunidades”, afirmou Sheyner.
Sobre o conteúdo da conversa, o advogado declarou:
“Todos têm a plena consciência que as mensagens só surgiram, só foram iniciadas após a morte, o homicídio das três vítimas. E houve um intervalo para a espera do tio. E foi por conta própria que assim ele fez. O Patrick inicia essa conversa e iniciou com o Marvin. Poderia ter iniciado com qualquer pessoa, qualquer outra pessoa que estivesse aqui no Brasil, em qualquer lugar do mundo. E eu disse naquela oportunidade, e aqui repito, a troca de mensagens não caracterizou o crime.”
A defesa de Patrick foi procurada para comentar a atual situação do cumprimento da pena na Espanha, mas não havia respondido até a última atualização das informações.
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Patrick cumpre pena em presídio espanhol
Atualmente, Patrick está preso na Penitenciária de Aranjuez, na província de Madri. Antes, ele havia passado pelo presídio Puerto III, em Cádiz.
Em Aranjuez, o condenado foi incluído no chamado “módulo de respeito”, destinado a presos que seguem regras mais rígidas de convivência e comportamento dentro da unidade.
Em 2021, Patrick foi agredido por outros detentos no presídio de Cádiz. Ele sofreu vários hematomas, precisou ser levado a um hospital e permaneceu internado por quatro dias.
Na Espanha, a prisão permanente revisável é a punição mais grave prevista na legislação. A pena pode ser reavaliada após 25 anos. No caso de Patrick, a primeira revisão está prevista para 2041.
Dez anos depois, caso ainda tem desdobramentos
A Chacina de Pioz marcou a história da família paraibana e provocou repercussão na Espanha e no Brasil. Patrick foi condenado pelas quatro mortes, mas o processo contra Marvin permanece em andamento na Paraíba.
A família de Marcos e Janaína continua acompanhando os desdobramentos judiciais enquanto busca preservar a memória do casal e das duas crianças, vítimas de um crime cometido por alguém que havia sido acolhido dentro da própria casa.
da Redação