Políticos, bicheiros e Interpol: entenda a rede formada por Vorcaro para expandir o Master

Para manter o esquema de fraudes no sistema financeiro e lavagem de dinheiro, Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, contava com uma rede estruturada e hierarquizada formada principalmente por familiares, policiais federais, bicheiros, servidores ligados ao Banco Central e até mesmo integrantes da Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal).

Liquidado no ano passado, o Master está envolvido em suspeitas de fraudes financeiras bilionárias pelo seu modelo de gestão e captação de recursos. Vorcaro é investigado por crimes como emissão de títulos de crédito falsificados, ameaça, corrupção e lavagem de dinheiro.

O ex-banqueiro tinha uma forte influência nos grupos políticos e midiáticos, mostram relatórios da Polícia Federal divulgados nesta semana após o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça autorizar a quebra de sigilo de parte das apurações.

As relações de Vorcaro com os principais citados nas investigações variavam conforme a função de cada um no esquema. A Polícia Federal relata uma clara divisão de tarefas entre os grupos, o que permitia atividades de fraude ao sistema financeiro, monitoramento de investigações e ameaça a opositores.

Um dos personagens é o senador Ciro Nogueira (PP-PI), descrito por Vorcaro como um “grande amigo de vida”. Segundo a PF, o parlamentar teria usado seu cargo no Senado para atender interesses privados do empresário, além de receber vantagens indevidas, como mesadas e pagamento de viagens.

Outro político que apareceu nas investigações foi o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), que, segundo a PF, agia de modo semelhante ao de Ciro: atuando em defesa do Master no Congresso em prol de vantagens indevidas.

Ligações e núcleos especializados

  • Influência entre políticos

Para conseguir defender interesses privados do Master, Vorcaro trabalhou na articulação e influência de figuras políticas, entre elas os senadores Ciro Nogueira e Jaques Wagner.

Em troca, o ex-banqueiro oferecia vantagens ilícitas, como apartamentos de luxo, mesadas e viagens para o exterior.

Os relatórios da PF descrevem uma relação de forte proximidade pessoal entre Vorcaro e Ciro, marcada por viagens internacionais, encontros privados, conversas frequentes, voos em jatinhos particulares e demonstrações públicas e privadas de amizade.

Além disso, a corporação descobriu pagamentos mensais de ao menos R$ 300 mil feitos por Felipe Cançado Vorcaro, primo do ex-banqueiro, a Ciro. Segundo os investigadores, Felipe teria operacionalizado uma parceria entre duas empresas de fachada, o que possibilitou as transferências ao senador.

A investigação também mostrou que Jaques Wagner se beneficiou de vantagens indevidas, tendo recebido voos gratuitos em aeronaves particulares, ingressos de alto valor para shows no exterior e teria ocultado a posse de um apartamento de luxo em Salvador avaliado em R$ 2,45 milhões.

  • ‘A Turma’

Formado principalmente por policiais federais, o grupo era voltado à prática de ameaças, intimidações presenciais, coerções, levantamentos clandestinos, obtenção de dados sigilosos e acessos indevidos a sistemas governamentais.

  • Interpol e FBI

Com o uso de hackers e agentes de segurança, a organização liderada por Vorcaro monitorava a Interpol e o FBI a fim de evitar riscos jurídicos e verificar se havia mandados de prisão ou alertas contra os líderes da organização.

Em uma das conversas entre Vorcaro e Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário”, eles falam em acionar um “amigo da Interpol” para organizar uma perseguição contra um DJ após uma desavença de Vorcaro com ele. O ex-banqueiro disse que estava disposto a investir R$ 10 milhões para dar uma “lição” no rapaz.

Segundo a PF, essa pessoa ainda não foi identificada, mas, “ao que tudo indica, auxilia a ‘Turma’ nas ações ilícitas”.

O grupo também alegava ter poder de pesquisa nos sistemas da Interpol. “Sicário” enviou a Vorcaro capturas de tela com o logotipo da instituição, dizendo também que aguardavam um relatório “do FBI”. Contudo, a representação da Interpol no Brasil analisou as imagens e informou à Polícia Federal que aquele visual não correspondia aos seus mecanismos de busca oficiais.

  • ‘Os Meninos’

Focado na vertente tecnológica, o grupo era orientado à prática de ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis e monitoramento telefônico e telemático ilegal.

Segundo a PF, eles invadiam e-mails, redes sociais e armazenamento em nuvem de alvos de Vorcaro. “Os Meninos” atuavam sobretudo para banir números de WhatsApp e derrubar contas de Instagram e Facebook de críticos de Vorcaro.

  • Núcleo Econômico

Composto por Felipe Cançado Vorcaro (primo), Henrique Vorcaro (pai) e Fabiano Zettel (cunhado), o grupo era responsável, principalmente, por controlar a parte financeira e operacional do esquema, negociando o pagamento de dívidas do esquema, articulando o envio de recursos para não deixar a milícia e os policiais “à deriva” e organizando os repasses das “mesadas” das pessoas envolvidas no esquema.

  • Controle da mídia

O esquema de Vorcaro envolvia o controle da mídia e de jornalistas, que eram pagos por matérias. O grupo também fazia uso de hackers para censura digital e intimidação física.

Em um dos casos, um jornalista chegou a receber R$ 2 milhões para publicar matérias coordenadas com a defesa de Vorcaro para criar justificativas jurídicas em processos.

Movimentação financeira
Entre os documentos, a Polícia Federal detalha as movimentações financeiras do grupo que indicam uma possível lavagem de dinheiro. De modo geral, o esquema utilizava instrumentos do mercado financeiro, empresas de fachada e a cooptação de agentes públicos para viabilizar o fluxo circular de capitais.

As investigações apontam para atividades como:

  • Fraudes no sistema financeiro e desvios;
  • Emissão de títulos privados sem lastro;
  • Técnicas de “descarimbar” e “descer capital”;
  • Contratos de gaveta e vantagens indevidas a políticos;
  • Uso de notas fiscais frias.

Em um dos casos, o grupo conseguia usar recursos sem rastreabilidade direta e criar sucessivas Sociedades de Propósito Específico (SPEs) com o objetivo de ocultar e dissimular a origem, a destinação e os reais beneficiários dos recursos movimentados.

As SPEs, segundo a PF, funcionavam como “contas de passagem”, recebendo depósitos milionários que eram imediatamente transferidos para outras empresas do núcleo no mesmo dia ou em curtíssimo intervalo de tempo.

R7.com

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