Leticia Albuquerque

Jurista e eterna aprendiz, em jornada de autodescoberta, refinamento e amadurecimento.

Instagram: @adv.leticia.albuquerque

Pedra do Altar: relatos de quem insiste em seguir

Apesar de não ter o menor condicionamento físico, Isabela insiste em fazer trilhas ecológicas. Vai assim mesmo, do jeito que dá. Para ela, cada trilha concluída – e, por incrível que pareça, todas são – vira um pequeno troféu íntimo. Mas não é só isso, nunca é só isso. Isabela coleciona metáforas e catarses como quem coleciona pedras bonitas no bolso. É sobre o esforço físico, claro, mas é também sobre a vida, essa trilha cheia de altos e baixos que ela percorre no mato e no cotidiano.

E há um amor. Um amor genuíno por um lugar chamado Pedra do Altar, lá no município de Barra de Santana, no cariri paraibano, pertinho de Campina Grande. Na primeira vez em que esteve por lá, em 2022, a trilha era mais larga, mais rústica, mais cheia de água – o que garantia um bom banho de cachoeira. Ela quase morreu de cansaço umas cinco vezes, mas persistiu. Venceu. Saiu dizendo que voltaria apenas quando estivesse em melhor forma. Não voltou. Nunca esteve em melhor forma. Mas, três anos depois, surgiu uma oportunidade… e alguém disposto a não soltar sua mão – o novo amor.

Em 2025, tudo parecia diferente. O lugar estava mais seco, mas ainda bonito. A trilha agora era estreita, íngreme, salpicada de pedras de todos os tamanhos. Isabela achou graça, porque a vida dela sempre foi assim: cheia de pedras no meio do caminho para superar, desde sempre e para sempre.

Para descer, era preciso cuidado, “freio nos pés”; para subir, coragem. Cuidado e coragem – palavras que serviriam bem como lema para quem tenta sobreviver à vida moderna, tão cheia de velocidade e de precipícios invisíveis.

Estreita e íngreme… “A porta é estreita”, lembrou o padre certa vez. Ideal seria se não fosse, se todos tivessem as mesmas oportunidades. Mas a vida é mestre em estreitar caminhos. Dias atrás, Isabela achou que alcançaria o primeiro degrau da sua própria escada, mas tropeçou, voltou ao início, chorou um pouco – e seguiu. Na Pedra do Altar, caiu quatro vezes. Sofreu na subida. Mas o banho gelado no rio Paraíba compensou, assim como as pinturas rupestres, marcas de seis mil anos que falam de rituais, brincadeiras e do tempo que não se apressa por ninguém.

Agora, com toda justiça, podemos dizer que Isabela é audaciosa, afoita e aventureira. Audaciosa por se meter numa trilha sem preparo algum. Afoita por enfrentar um lugar que parece não ter sido feito para ela. E aventureira como os colegas de trilha e os guias – gente cansada de shoppings e ar-condicionados, e que encontra alegria numa comidinha regional no meio do mato, depois da exaustão.

No fim das contas, é simples: Isabela vive.

* Os textos e vídeos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Paraíba Dia a Dia.

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