Dia a Dia

Gestantes russas buscam atendimento acolhedor e escolhem João Pessoa para ter filhos

A procura por acompanhamento pré-natal e parto em João Pessoa tem levado gestantes russas a se mudarem para a Capital Paraibana. Elas citam o acolhimento e o atendimento humanizado como fatores que pesam na escolha, em contraste com experiências que dizem ser menos comuns na Rússia.

Uma delas é Viktoriia Baskakova, que viveu em Moscou, na Argentina e em outros estados brasileiros antes de se estabelecer na Paraíba. Ela conta que a família conheceu a cidade, gostou das praias e do clima e decidiu ficar. Desde a mudança, Viktoriia teve uma filha e está grávida do quinto filho.

“Conhecemos a cidade, vimos as praias, depois nos demos bem com o clima. Foi a primeira vez na vida que eu e meu marido concordamos plenamente que íamos ficar por aqui mesmo e construir a vida justamente aqui”, relatou.

Segundo ela, as diferenças no atendimento às gestantes e os custos dos serviços de saúde contribuíram para a decisão. Viktoriia afirma que, na Rússia, a presença de um acompanhante durante o parto pode ser cara e envolver obstáculos, além de haver, em sua avaliação, mais intervenções médicas.

“Na Rússia não existe essa veneração às grávidas, como tem aqui. Ter um acompanhante no parto, bem, geralmente custa muito caro, mas além disso tem muitos obstáculos e os médicos não são muito a favor. E eu diria que lá tem intervenções mais brutais”, disse.

O ginecologista e obstetra Guilherme Carvalho percebeu um aumento na procura de pacientes russas há cerca de um ano e meio. Ele afirmou que atualmente acompanha 12 gestantes dessa nacionalidade.

“No início, eu achava que era mais pela cidade, João Pessoa está recebendo muitos turistas estrangeiros, mas pontualmente eu comecei a perceber, nesse ano, uma demanda muito grande de russos especificamente. Porque eu já tinha atendido italiana, já tinha atendido ucraniana, já tinha atendido portuguesa. Atualmente eu estou fazendo um pré-natal de 12 pacientes russas”, afirmou.

A diferença de idioma é contornada com tradutoras, aplicativos e equipamentos que fazem tradução simultânea. A doula Thayana Jovino explica que a maioria das gestantes vai às consultas acompanhada por alguém que interpreta a conversa, embora também sejam usadas plataformas de tradução.

A equipe adapta prontuários, receitas e orientações sobre a gravidez para o russo. Carvalho disse que utiliza um equipamento que traduz as falas nos dois sentidos, permitindo que ele fale em português e as pacientes ouçam em russo, e vice-versa.

A mudança para o Brasil faz parte de um fluxo migratório mais amplo. Dados do governo federal apontam que cerca de 60 mil cidadãos russos entraram no país entre março de 2022 e os últimos meses de 2025. De 2024 a 2025, outras 1.094 pessoas de origem russa obtiveram cidadania brasileira.

A especialista em Relações Internacionais Leila Bijos relaciona o movimento ao contexto geopolítico e às dificuldades de imigração para países vizinhos da Rússia. Ela também menciona restrições a procedimentos médicos, como cesáreas, e afirma que as gestantes sentem falta de apoio e troca de informações.

“ As russas sentem falta de conversar, de trocar ideias, porque a mãe fica muito insegura na gestação, principalmente nos últimos meses. Então, isso no Brasil é importantíssimo, porque os nossos médicos são amigos”, declarou.

Com a experiência de imigrante, Viktoriia passou a atuar como doula e a acolher gestantes que estão longe do país de origem. Ela diz que procura compartilhar com os filhos as experiências positivas de viver na Paraíba e acredita que as crianças nascidas no Brasil crescerão integradas à cultura local.

da Redação

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